custa perceber

Thank you world and my family for this oportunity, this life and living experience. Ainda não consigo perceber muito bem como vim parar à Índia, a uma cidade do Rajastão, como é que de um momento para o outro não há cozidos na minha dieta e como é que quatro desconhecidos se tornaram a minha família (não sei se estou a achar graça ao controle excessivo).

Três meses e meio noutro mundo. Um mundo onde homens e crianças andam de mãos dadas na rua, onde a chuva é uma benção e sinónimo de ir para a rua. Mesmo depois das várias exclamações de preocupação e algumas lágrimas tão desmotivadoras, estou na Índia.

Por vezes custa mesmo perceber o porquê de certos actos e vontades, ainda não percebi o porquê, agora que cá cheguei ainda menos percebo. Uma família que de um momento para o outro me tira toda a minha alegria de pessoa independente com a simples pergunta “porque chegaste tão tarde?”. Viver numa casa tão longe de tudo que me dificulta o contacto com os maiores pontos de interesse da cidade. Um calor que me não me permite pensar, sequer. Valores e roupas que me fazem sentir uma estranha. Dificuldade em manter amizades pelo obstáculo da língua. Ser observada a cada passo que dou na rua. Não poder beber água nem lavar os dentes à vontade sem me preocupar com a qualidade da água e doenças. Não poder matar os insectos que invadem o meu espaço. Não poder sentar-me numa sanita. Esquecer o que é ter um cabelo limpo e macio. Desejar ter óculos de natação cada vez que ando de mota (a poeira é demasiada). A lixeira ser a rua (poluição, poluição). Deparar-me com um conceito de pobreza que não fazia parte do meu imaginário até à data. Etc. Etc. 

Por vezes custa mesmo perceber o porquê de certos actos e vontades, ainda não percebi o porquê, agora que cá cheguei ainda menos percebo. Uma família que me acolheu desde o primeiro dia, que se preocupa com quem me dou, com quem estou, com o que faço. Uma família que me dá de comer a toda a hora, que me quer ensinar coisas, que apesar das diferenças linguísticas tenta conversar comigo. Uma família que me inclui nas crenças religiosas. Pessoas que acabei de conhecer mas que se dão ao trabalho de fazer longos caminhos para me virem buscar a casa e me levarem a fazer coisas. Famílias que vou conhecendo pontualmente que querem uma fotografia de família, me aprontam a preceito e me fazem rituais de sorte: pinta na testa, arroz na pinta, doce na boca, nota na mão. Crianças que se fascinam com o meu ar, adolescentes que acreditam que lhes posso dar algo de muito útil. Construções fascinantes. Cor. Reconhecer a beleza da chuva e desejá-la. Sabores nunca antes provados. Um país crente.