Jaisalmer - where you can go alone

Graças à chuva de quinta-feira, foi-me dada folga sexta e sábado (mesmo a calhar, preciso de descansar daquela escola). Muito rapidamente a minha cabeça se pôs a pensar… Embora andasse a preparar uma viagem a Udaipur e Mount Abu para quando tivesse dois dias livres, achei que devia aproveitar o mau (bom, aqui por estes lados) tempo em toda a Índia para ir à zona mais quente, ao deserto! Assim, sexta de manhã comecei a preparar a viagem, tentar condensar tudo o que queria fazer num dia para evitar ter que passar a noite em Jaisalmer, uma vez que queria estar de volta a Jodhpur no domingo para celebrar o Rakhi e estar presento no festival de Kytes. O irmão indiano ajudou-me e lá comprámos os bilhetes de comboio: um para as 23.30h do próprio dia e outro de volta para o dia seguinte, sábado, à mesma hora.

Chegados à estação de comboios senti-me logo desconfortável, um imenso tapete de gente deitada no chão em frente da estação. Ao entrar, o dormitório continuava e os que se mantinham acordados não evitaram olhar-me persistentemente. Ia ser assim a minha viagem de um dia? Encontrámos alguns turistas/viajantes (penso que esta palavra retrata melhor quem anda de mochila pela Índia) e o meu “irmão” não hesitou em tentar estabelecer algum contacto entre mim e eles. Mas vá lá… não havia necessidade de fazer o papel de mãe a tentar forjar laços de amizade pelos filhos numa ida ao parque. Anyway, estava nervosíssimo com a minha ida a Jaisalmer e eu agradeço a preocupação. No entanto deixou-me a pensar… se até os indianos têm medo de andar sozinhos se calhar é porque há razões para tal, portanto, o que raio estás a fazer a viajar sozinha na Índia, Carolina? Embora o comboio fosse muito mais apertadinho do que o que me trouxe de Delhi a viagem foi muito mais agradável, também muito mais curta. Ao chegar a Jaisalmer toda a gente tinha pessoas dos hotéis à sua espera… once again, o que raio tens na cabeça para quereres fazer tudo sozinha e quereres faze-lo a pé, Carolina? Como cheguei muito cedo, 6 da manhã, esperei um tempinho na sala de espera onde conheci um grupo de cinco pessoas nos seus cinquentas que estava com o mesmo plano de horário que eu, chegar de manhã e ir embora à noite. Uma coisa boa aqui na Índia é que TODA a gente viaja, independentemente da idade, para todo o lado, independentemente da distância. Às 7h pus-me a caminho. Tudo calmo e, afinal, o Gadisar Lake, é perto da estação de comboios. Senti-me satisfeita, orgulhosa por não ter deixado de fazer a viagem só por causa do medo alheio e que aquele momento tinha sido a minha recompensa pela coragem (o que quero dizer é mais: calma, determinação, meditação – na minha acepção da palavra). É engraçado ter chamado a este processo meditação uma vez que o tema de conversa surgiu por duas vezes no espaço de três dias. Durante muito tempo foi um termo que não conseguia compreender mas desde que decidi aceitar a minha visão sobre o que é a meditação que tem feito todo o sentido. Nas conversas apercebi-me que muitas vezes antes de dormir recorro à meditação e agora, ao escrever este texto, apercebi-me que esta estratégia que tenho usado para fazer coisas, não é coragem, não é desvaneio, é concentrar-me no presente, no acontecimento, não é pensar no que poderá acontecer, na incógnita do futuro, ou nas histórias passadas.

Pelas ruazinhas da cidade, subi até ao forte. O dia ainda estava a começar, os estaminés a comporem-se, as conversas ainda não tinham entrado no modo negócio. Passei num haveli, entrei no forte. Aqui ninguém está a salvo dos comerciantes de comida, de roupas, de artesanato, de viagens e de paleio. Todos me queriam impingir um guia e disseram que era impossível visitar o interior do forte sem um guia, cada metro que andava, uma abordagem, é claro que tinha que discriminar a minha atenção, não dá para falar com todos, à conta disso recebi uns comentários menos agradáveis. Afinal, é fácil visitar o forte sozinha, não é assim tão grande e confuso como parece. Na Índia, está instalado este sistema que faz com que as pessoas pensem que são incapazes de fazer coisas sozinhas, de viajar e visitar locais sozinhas. No fim do dia percebi que não é nada difícil e que até tem as suas vantagens. Conheci um rapaz alemão da minha idade (já tinha estado a viajar durante 9 meses pelo sul asiático; como é que os alemães conseguem estas coisas?), os únicos sozinhos naquela cidade, muito provavelmente. Entretanto, já conhecia todos os vendedores do forte, de vendedores passaram a uma espécie de amigos, não me queriam vender nada e acho que até estavam com pena de mim, a oferecerem-me trabalho nas lojas ahah Ajudaram-me, também, a visitar os sítios que queria a um bom preço. Por mil rupias (preço normal 2000 rupias), o Mr. Happy levou-me a Bada Bagh e até à área desértica de Kanoi (em vez da muito turística Sam Sand Dunes). No entretanto passámos por uma série de vilas isoladas, com casas pequenas circulares com telhados em colmo, pela lendária aldeia de Kuldara e, também, pela vila em ruínas de Khaba com um pequeno forte no topo. Chegando ao Thar Desert, tinha um camelo à minha espera (no meu horizonte não se avistava nenhuma outra alma e as minhas ideias de que algo podia correr para o torto não me largavam). Lá me pus em cima do camelo beeeeeeeehhhh não quero repetir! A subida foi um bocadinho inesperada, ia caindo! Durante a última semana vi dois filmes acerca do deserto, sendo que num deles é mostrado que os camelos não são nada mansos. É claro que isto contribuiu para a minha fuga de calma em cima do camelo. Na volta, tivemos que nos meter pelo meio de uns campos desérticos para fugir à polícia, uma vez que o meu rico guia não tinha licença para tal. O caminho de volta, por campos e campos (esqueci-me de mencionar que do centro de Jaisalmer até ao deserto são 40 e poucos quilómetros de distância) ao pôr-do-sol, a receber o vento da mota foi agradável, tirando o tremor com que fiquei nas mãos e nos pés durante mais meia hora.

Na verdade o Mr. Happy tinha um ar super assustador (magro, alto, manchas na pele, um olho parecia cego e tinha tiques nervosos em que a cabeça tinha espasmos para o lado), nada agradável, mas correu tudo com normalidade, ainda parámos na vila de produtores de vegetais e frutos da cidade, onde a irmã vive e nos deus curd, parámos na vila do resto dos seus familiares e ainda fiquei a jantar em casa dele com a mulher de 20 anos, que me fez um desenho na mão em hena, enquanto o Mr. Happy foi a uma festa. Quando voltou (sei que andou a beber álcool) ainda me levou à estação, sempre a relembrar-me que tinha que o publicitar junto dos meus amigos mas para não mencionar o preço que me fez. Meus caros, não desejo este homem a ninguém.

Última imagem que guardo de Jaisalmer: anoitecer, cimo do forte, vista para toda a cidade, três mosques seguem as suas orações depois de uma série de canções hindus vindas do meio das casas. A lua vai-se tornando mais nítida, falta um dia para a lua cheia. Morcegos pequenos e de um metro sobrevoam-me.

Ao chegar à sala de espera da estação de comboios encontrei o mesmo grupo que tinha estado a fazer-me companhia pela manhã, agradável conversar com eles.

Já no comboio, dormi. A mehndi (hena) descascou entretanto. Cinco e meia da manhã estava em Jodhpur. Mais um dia especial prestes a começar.