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if you could see the things that i’ve seen
Há uma passagem do meu primeiro dia na Índia que não me larga, todos os dias me lembro dessas imagens e com certeza que irão condicionar as ideias que formarei sobre a Índia. Digo no futuro porque ainda não consigo formar nenhuma opinião concreta.
Estava em Nova Delhi, num auto-riksha, ao anoitecer, em direcção à estação de comboios, a cerca de 14 horas de chegar a Jodhpur, quando algo bem mais electrizante se junta ao chinfrim (que se calhar agora já não me faria tanta confusão como na altura) das buzinadelas de carros e motas. Imagine-se um sentido com duas vias na qual se encaixam quatro veículos e se for preciso mais uma vaca. Isto, em hora de ponta numa cidade com pouco mais habitantes do que Portugal inteiro. Uma música muito alta e muito estridente capta-me a atenção de entre todos os outros estímulos, até os macaquinhos bebés se dissiparam. Homens vestidos a cor de laranja choque caminhavam. Templos móveis, carros decorados com cores vivas e com grandes colunas faziam um aparato impossível de ignorar. Agora penso que talvez fosse mesmo esse o objectivo: manter acordados os caminhantes. Uns dançavam e riam, outros fumavam grandes cigarros. E continuavam a caminhar.
Passado praticamente um mês os caminhantes chegaram a Jodhpur. Caminham rente à estrada mas os olhos estão fixados no horizonte. A pele nota-se que está seca, são magros e as roupas são poucas e estão escuras. Da poeira, de pernoitar ao relento. Os corpos parecem ter deixado de querer, seguem simplesmente, dormentes. O calor, o corpo ressequido, a energia gasta, não permitem mais que a imagem do destino e o continuar do caminho sem questionar.
Peregrinos em direcção a Jaisalmer.