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Bem… acho que chegou a altura de contar o que ando a fazer, afinal, por terras indianas.
Todas as manhãs me levanto às 6 da manhã para estar pronta às 7h, fazer um caminho de cerca de 25 minutos de mota até chegar, finalmente, à escola, onde tenho que assinar a folha de presenças até às 7.30h. No início acordava às 5.50h mas acho que o facto de ter o número 5 tinha um efeito bastante doloroso no meu acordar, já para não falar das noites sem dormir ou de constante acordar que duraram cerca de três semanas, então mudei o despertador para as 6h.
Estou então a trabalhar como professora, e não, não é em modo de voluntariado, é trabalhar como uma verdadeira cidadã indiana que recebe umas míseras 11000 rupias ao fim do mês. Agrada-me bastante a ideia de viver os países, de perceber como é a vida realmente em vez de viver uma vida paralela como costuma acontecer no típico ambiente de Erasmus que acontece sempre que se está dentro de um grupo de jovens todos com o mesmo propósito. Nestes casos constitui-se uma espécie de comunidade e vive-se de acordo com ela. Nada melhor para viver como uma indiana que arranjar um emprego indiano completamente comum e estar inserida numa família, como estou.
Ora achava eu que ia para uma grande escola… privada, com um nome sonante “RSM International School”, com direito a website onde podia ver uma fotografia da escola… wow! Que luxo! Pensava eu até ver a escola ao vivo e deparar-me com um cenário totalmente diferente do prometido. A escola foi aberta há quatro anos e o segundo andar ainda está “under construction” (quem diria!). Admito que lhe dá toda uma nova dinâmica… não sei como constroem o andar de cima mas de vez em quando é como se estivéssemos a ser atacados por bombas, por outro lado, novos elementos vão surgindo como novas zonas em pedra para beber água! “Chique a valer”
Tinha aqui uma coisa guardada a propósito do meu primeiro dia na escola:
Today was my first day as an intern, as a worker abroad, as a stipendiary worker. More than everything, it was the first time I worked on something I didn’t have a clue on how to.
First, taking a motorbike lift to school by one of the teachers. Second, sitting on the library/teachers’ room while they speak in a totally unknown language while staring at me. Third, standing in the front of 40 centimeters height kids without knowing what to do as soon as I understood that communication was almost impossible between us.
“Let’s start with a song!” (Every kid starring at me as If I was some member of Monsters & Co.) “Let’s learn the alphabet letters!” (They don’t understand that it is to repeat what I say or maybe they’re just shy). So, I start to feel embarrassed and with that my expressions and acting skills just got really exaggerated… to my surprise they started copying my gestures!
After that I got more close to them. We played, gave them food, carried them, let them touch my hair (now I started to feel hitchy, don’t know if I got something from them or if I am just beeing paranoid or it’s this weather that is drying all my hair). In the end I think my presence was useful. They realized that they had to communicate with me on another language, and so they started: “cat”, “cat”…
While all this was going on, other students, from 9th grade, went to the classroom’s door to meet me, telling me “we love you, Mam!” and inviting me to go to their houses; also asking which subject I was going to teach them (none, I’m reserved for the ones who don’t understand me)! Every time I was walking through the corridor I felt all heads turning at me and whispering on the other side of the glass. I’ve met there a ex-teacher who recently got married, I felt very interested in what she had to tell about her arranged wedding, and who told me that when she was entering school every student were saying that a foreigner was there! I guess I can’t disappoint these kids!
Bem… noto uma grande diferença na energia que tinha no início e na que tenho agora. Com dias e dias de grande calor e poluição em cima e já doente por duas vezes, com dificuldades em descansar, é normal que assim seja. No entanto, agora lido muito melhor com as crianças! Conheço-as bem! No princípio parecia ser impossível decorar os nomes deles, aprender palavras em hindi… agora sei as necessidades de cada um, o que os mantém interessados, as manias e formas de reagir de cada um… e adoro cada um deles!
Muitas foram as peripécias já… Deixo aqui um apontemanto que fiz no início do mês passado:
Uma criança estava tão confortável ao meu colo que decidiu brindar-me com um grande xixi quentinho! Ora, é claro que parecia que eu é que tinha feito xixi nas cuecas e é claro que isto só podia piorar: foram-me chamar para ir dar aulas ao segundo ano. Sabia lá eu o que é que eles estavam a dar ou qual era o nível de inglês daquelas crianças. Levam-me para uma sala e lá me deixam em frente de 20 pequenos vestidinhos de amarelo. Mal começo a ler a história da página na qual me tinham aberto o livro começam-se todos a rir, pois é.. se calhar não devia ter dado tanto ênfase na leitura! Já não me levaram mais a sério. Gritaria, brincadeira, até um berlinde me deram no meio de tudo isso. Lá vêm duas professoras, a turma acalma-se. Aqui tem-se medo dos professores.
Depois das aulas, os professores foram convocados para uma reunião com a directora. Desde aí que me tenho sentido mal, cerca de 100 euros é o ordenado destes professores, sendo que a directora apenas lhes vai pagar metade do ordenado este mês como forma de os assegurar naquela escola até ao final do ano lectivo. Parece-me que essa não é a melhor forma de manter pessoas por perto, assim como aterrorizar crianças não é a melhor forma de os pôr a trabalhar. Também estou preocupada comigo, afinal que raio de ordenado vou receber? Ai, India, India… muitque'taturo!
A 7 de Agosto choveu. Uma delícia para todos. Especialmente para mim, que só tive 7 alunos e tudo foi mais produtivo e divertido. Peguei num pano e mascarei-me à velha, as crianças deliraram, as professoras vieram todas espreitar a alegria daquela sala e ficaram à porta a rir-se.
Um dos meus alunos chama-me mãe, avó à auxiliar e tia mais nova a uma professora que me é muito querida que costuma passar pela minha sala todos os dias. Demasiado comovente.
Ora, nem tudo são rosas e mesmo quando são esté sempre tudo cheio de espinhos. Há cerca de duas semanas passei uma semana a dar aulas sozinha! Passados muito pouco tempo de me ter juntado à escola já estava ali entregue aos bichos. A outra professora indiana tinha desistido e posteriormente a auxiliar também se despediu. Conseguem imaginar o desespero de tentar chegar às necessidades de 16 crianças entre os 2 e os 3 anos de idade? Xixi (houve muito xixi naquela sala nessa semana, com o tempo que demorava a gritar por uma auxiliar no corredor e o tempo dela chegar e levar a criança à casa de banho já duas roupitas estavam todas enxarcadas), dar de comer, fazer com que não chorassem e que não lutassem nem se magoassem, proibir que subissem às janelas e enchessem tudo de areia dentro da sala (entretanto, já estava tudo sujo), brincar, ensinar inglês, etc., e no meio disto tudo não perceber nada do pouco que eles sabem dizer em hindi e não saber dizer nenhuma palavra que eles percebessem também. Depois de começar a pensar que não ia aguentar os meses que me faltavam surge, terça-feira uma professora! Tem experiência com crianças e conseguiu pô-los na linha. Tudo me parecia melhor quando no dia seguinte, por maior do meus espantos, a professora tinha abandonado o cargo. No final da manhã apareceu uma professora substituta… coitada! Até eu percebo mais de crianças do que ela e vá… mesmo que não tenha experiência enquanto educadora, tem um filho! Passado um dia e meio já tinha outra professora a substituí-la… já está há uma semana comigo, será que vai continuar? Hoje disse-lhe que amanhã ia ensinar outras classes. Respondeu com cara de pânico e usou o seu inglês muito fraco para perguntar como ia dar conta do recado sozinha. A sua sorte é que entretanto contrataram uma auxiliar exemplar, melhor auxiliar de sempre! As crianças adoram-na, limpa tudo, leva-os à casa de banho (na verdade leva-os a fazer xixi na relva… não sei que pensar sobre isto), dá-lhes de comer!
E é assim que estamos, por agora.