if you could see the things that i’ve seen

Há uma passagem do meu primeiro dia na Índia que não me larga, todos os dias me lembro dessas imagens e com certeza que irão condicionar as ideias que formarei sobre a Índia. Digo no futuro porque ainda não consigo formar nenhuma opinião concreta.

Estava em Nova Delhi, num auto-riksha, ao anoitecer, em direcção à estação de comboios, a cerca de 14 horas de chegar a Jodhpur, quando algo bem mais electrizante se junta ao chinfrim (que se calhar agora já não me faria tanta confusão como na altura) das buzinadelas de carros e motas. Imagine-se um sentido com duas vias na qual se encaixam quatro veículos e se for preciso mais uma vaca. Isto, em hora de ponta numa cidade com pouco mais habitantes do que Portugal inteiro. Uma música muito alta e muito estridente capta-me a atenção de entre todos os outros estímulos, até os macaquinhos bebés se dissiparam. Homens vestidos a cor de laranja choque caminhavam. Templos móveis, carros decorados com cores vivas e com grandes colunas faziam um aparato impossível de ignorar. Agora penso que talvez fosse mesmo esse o objectivo: manter acordados os  caminhantes. Uns dançavam e riam, outros fumavam grandes cigarros. E continuavam a caminhar.

Passado praticamente um mês os caminhantes chegaram a Jodhpur. Caminham rente à estrada mas os olhos estão fixados no horizonte. A pele nota-se que está seca, são magros e as roupas são poucas e estão escuras. Da poeira, de pernoitar ao relento. Os corpos parecem ter deixado de querer, seguem simplesmente, dormentes. O calor, o corpo ressequido, a energia gasta, não permitem mais que a imagem do destino e o continuar do caminho sem questionar.

Peregrinos em direcção a Jaisalmer.

                                              krishna birthday party

Ontem à noite todos os templos se transformaram em luz. Aquilo a que chamaríamos luzes de Natal (estou tão feliz por passar o Natal em Portugal, while we are at it) serviu de enfeite para toda a cidade. Celebra-se o nascimento do pequeno e rechonchudo deus azul. As pessoas rumam aos templos de Krishna como que carreiros de formigas na sua missão por uma migalha. Por dentro, as paredes, as colunas, as pinturas e as estatuetas dão lugar a incontáveis pequenas flores coloridas. Canta-se. A forma de cantar parece-me incomparável aos cânticos que se ouvem numa missa católica. Não importa se estamos dentro do tom, não existe um coro para guiar os crentes. Cantam simplesmente para se fazerem ouvir. Sinto-me a entrar num transe capaz de evocar algo superior. Uma voz ou outra sobressaem, a vontade de se fazerem ouvir é grande. No pátio do templo sinto uma alegria, um preenchimento, que me faz olhar para cima. Está no meu peito mas parece que quer sair em direcção ao céu.

A cidade está repleta de pequenas feiras populares. Não vejo grande diferença aqui entre uma celebração religiosa e uma ida ao parque de diversão.

Na cidade fui a três templos (dois deles, dos templos de Krishna mais antigos em Jodhpur, 250 e 150 anos). Ao chegar a casa percebo que a pequena aldeia se tinha tornado num grande ponto de peregrinação. Carros e carros, barraquinhas de comida e de artigos religiosos encheram a minha pequena rua até ao templo.

P.S.: Vi dois turistas… dei por mim a ter a mesma reacção que os indianos têm quando me vêem passar. Espanto e fascínio, vontade de lhes falar, de me sentir um pouco mais perto de casa. Desde que estive doente, sexta-feira, que tenho morrido de saudades de casa (Lisboa, Assenta, Braga e Viana), de me sentir descontraída ao pequeno almoço (comer cereais enquanto deixo ao critério da TV as primeiras imagens do dia) e dos prédios (bonitos) de Portugal. Nunca pensei vir a dizer isto.