Uma Religião, Muitas Guerras

Pediram-me para escrever sobre religião (obrigada disorder-division por toda a atenção). O que sei ou percebo eu sobre religião? Por aqui têm-me perguntado recorrentemente qual a minha vertente religiosa ou, simplesmente, se acredito em Deus. Ora… sou capaz de elaborar uma resposta suficientemente complexa para não poder ser dada nesses momentos, de modo que tenho acabado por dizer qualquer coisa como “interesso-me por todas as religiões” ou “acredito em espiritualidade”. Não sei até que ponto estas respostas satisfazem os tão devotos hindus mas, decerto, mais do que os fanáticos muçulmanos.

Tive uma conversa a meias palavras com uma pandit (equivalente a padre hindu) de um templo perto de casa que me elucidou e satisfez relativamente ao hinduísmo. Duvido que haja religião mais complexa, com mais deuses, namoradas/mulheres de deuses, dias celebrativos e rituais a acompanhar. Mas em que é que acreditam os hindus? Que um ser humano azul, chamado Shiva, existiu de facto? Em todas aquelas lendas e amuletos (fitas, colares, pulseiras, etc.)? Até que o engraçado Pandit me disse: God is everything. Is this and this and this (apontando para vários objectos). Is sun (apontando para o céu já cheio de estrelas) and soil. God is energy (arregalando os olhos diabéticos e dando um tom misterioso ao que lhe saía pela boca). Pois é… Deus é tudo. É tudo o que quisermos, basta acreditar. É aqui que reside o mistério dos hindus: são verdadeiros crentes! Do levantar ao deitar enchem-se de rituais. Em minha casa, por exemplo, o “pai”, conhecido por Baba por “levar uma vida de santo”, faz o seu circuito por vários pontos da casa (ora onde tem pequenos templos, ora onde tem fotografias de santos ou familiares). Neste percurso diário faz as suas rezas acompanhando-se de vários incensos e velas. Quando chega a casa, ao anoitecer, depois de vir do templo, faz o mesmo.

Cada dia está reservado a uma celebração ou a um Deus, portanto, todos os dias é desculpa para demonstrar mais uma crença, quer seja através do jejum, através de uma dieta específica ou de uma dança.

O ser humano precisa de acreditar. Não consigo imaginar alguém que já tenha vivido um número considerável de anos e que nunca se tenha virado, nem que seja para si mesmo, à procura de forças. Se não é em Cristo, é na Bruxa; se não é na missa, é na cura perânica; se não é num deus, é em nós mesmos.

Não sei se consigo escrever muito mais sobre religião… Coisas práticas? Os hindus andam em manifestações contra os muçulmanos porque lhes andam a matar as vacas. Se há lago, por maior antro de doenças que seja, com templo por perto, é água sagrada e aí todos se banham sem preconceito. Não há regra de não mostrar o ombro, até as mamas vão à água. Tudo o que há para fazer na Índia é ir ao templo. A cada passo que se dá é templo: em casa, na rua, no autocarro, no jardim… A propósito do Jainismo… os sagrados/puros vivem despidos e deslocam-se com uma série de seguidores atrás. A religião aqui reflecte-se em tudo o que se faz, guia as regras do lar e a conduta na rua, por exemplo, o caso da menstruação que já contei numa publicação anterior. No outro dia fui a um templo aqui com a família e puseram-me a fazer o ritual de ajoelhar e juntar a cabeça ao chão, pôr uma pinta de sândalo na testa, tocar o sino e dar voltas ao templo. Senti-me pouco confortável a faze-lo porque para mim não faz sentido se não estivermos com o pensamento ou alma em algo até que perguntei se pensavam em algo quando faziam estes actos sagrados e tão apressados. A resposta foi um simples: não.

if you could see the things that i’ve seen

Há uma passagem do meu primeiro dia na Índia que não me larga, todos os dias me lembro dessas imagens e com certeza que irão condicionar as ideias que formarei sobre a Índia. Digo no futuro porque ainda não consigo formar nenhuma opinião concreta.

Estava em Nova Delhi, num auto-riksha, ao anoitecer, em direcção à estação de comboios, a cerca de 14 horas de chegar a Jodhpur, quando algo bem mais electrizante se junta ao chinfrim (que se calhar agora já não me faria tanta confusão como na altura) das buzinadelas de carros e motas. Imagine-se um sentido com duas vias na qual se encaixam quatro veículos e se for preciso mais uma vaca. Isto, em hora de ponta numa cidade com pouco mais habitantes do que Portugal inteiro. Uma música muito alta e muito estridente capta-me a atenção de entre todos os outros estímulos, até os macaquinhos bebés se dissiparam. Homens vestidos a cor de laranja choque caminhavam. Templos móveis, carros decorados com cores vivas e com grandes colunas faziam um aparato impossível de ignorar. Agora penso que talvez fosse mesmo esse o objectivo: manter acordados os  caminhantes. Uns dançavam e riam, outros fumavam grandes cigarros. E continuavam a caminhar.

Passado praticamente um mês os caminhantes chegaram a Jodhpur. Caminham rente à estrada mas os olhos estão fixados no horizonte. A pele nota-se que está seca, são magros e as roupas são poucas e estão escuras. Da poeira, de pernoitar ao relento. Os corpos parecem ter deixado de querer, seguem simplesmente, dormentes. O calor, o corpo ressequido, a energia gasta, não permitem mais que a imagem do destino e o continuar do caminho sem questionar.

Peregrinos em direcção a Jaisalmer.

53 steps

53 passos até ao pequeno templo onde as vozes já em casa se ouviam. Mulheres, homens, crianças, vacas e cães, todos virados para o pequeno templo onde lá dentro apenas cabe quem gira a taça com fogo. Logo junto à entrada, homens transpirados repetem os cânticos de transe, em fila todos se vão chegando à frente para fazer o seu ritual de celebração. Vai-se tocando um sino. Olho com espanto, com bem-estar, com alegria de estar presente na última segunda feira da época de monsoon, segundo o calendário hindu.

Entramos para dentro do patiozinho azul do templo, onde por sua vez, por maior dos meus espantos que já se vão tornando menos frequentos, encontro outro templo. Ora, vinte passos à frente, no largo da vacaria, há outro templo e no cimo de uma pequena colina há outro.

Amanhã à noite vamos até à cidade para a celebração do aniversário de outro templo, fundado por alguns membros Brâmane, nomeadamente os da minha família de acolhimento.

Todos os dias é um dia especial.