Track:
Son
Artist:
Warpaint
Album:
Warpaint

The song that made the journey in India calmer and real. Something I took with me from my usual life in Portugal, that helped me in my long bus and train trips on that immense country, and in my hard to fall asleep burning nights.

India of my dreams

Back home. Back to the place where I was born and where I grew up. I should feel warm, secure, relaxed. So why am I so anxious and worried?

I don’t want to get into an all depressive speech but it is a fact that this country doesn’t seem more at my eyes than sad. I tell you what happened in the airport in London. I had to wait a few hours sitting in the airport, as you can imagine a lot of people passed by me and it was hard when I realized that I was no longer in that warm country called India. I was in a strong yellow skirt and wearing slippers, contrasting with all the rest, in black winter clothes. The faces perfectly perfect, no sweat and a lot of make-up, as well as they had the hair in cared hairstyles. No one gives a look back, no one sees anyone. Not a word, not a smile, not a wink, nothing. Between all the dark moving bodies I started to see color, to see a floor made of yellow dust, orange turbans, tanned tummies, sparkling sarees and floating scarves. I noticed that those people don’t really seem like people, they are far from that, the way they act, the way they walk. I had forgotten these minds, what they think and care about, they are disguised, they are so far… Far from their roots, from their real needs, from the animal they are and this breaks me in the inside. What makes me nervous is this society, full of manners and prejudice, where people are so full of themselves and already forgot the meaning of help.

Of course I can’t generalize and that this state of spirit as to do with a lot of personal issues such as the uncertainty of the future, a thesis to do, a job to find. Also, it is true that Portugal is a good country, clean, safe, beautiful and the people, though their peculiarity of being “labregos” they can be a pretty funny people.

But there… there you only need to exist, everything comes to you. You are in the world, no need to keep searching for it. No fear. As I realized when I reflected about religion in a previous post, you only need to believe, believe in whatever you want. No harm will come to you on that country/world of trust and faith if you decide so.

Plus, when you go out is when you are free from all the social context limitations and influences and when you can discover more about yourself and be able to go further, on your tastes, on your skills, on your adventures and independence.

Part of me is now on the other side of the Earth and it ain’t easy. It is hard when home is not only in one place, when it is in Portugal, Turkey and India, when we can’t have the people we love at a distance of a cab. Half of me is now empty in an empty place and I miss that one where I only used to see beauty, where I was in love with everything and with everyone.

Last day of my first job. It was hard to let go my kids. Hugs, laughs and tears. A lot of learnings, a lot of new experiences.

And the most unlikely thing happened: it rained, as in every Bollywood happy ending.

Thank you AIESEC, thank you RSM International School.

Indian food :3

Indian food :3

Kochi e Alleppey, Kerala.

being alone is being with the whole

Nunca me tinha passado pela cabeça a possibilidade de estar na Índia aos 22 anos. Muito menos me tinha cruzado no pensamento a ideia de vir a viver alguma vez na Índia; se viesse seria, com certeza, durante um mês, só para passar umas feriazinhas. É claro que vir sozinha seria impensável… num país, tão grande, diferente e pouco cómodo para as mulheres… Mas, bem… mesmo que, por maior dos acasos, a vida me trouxesse para a Índia nunca me aventuraria a viajar por este gigante país fora sozinha. A verdade é que conhecemos muito pouco de nós mesmos e daquilo que somos capazes.

Dia 4 de Outubro de 2014 (bloco de notas): O que farias se estivesses sozinha, numa estação de autocarros, com ratos a passar de um lado para o outro por baixo da banca onde acabaste de pedir um pão com manteiga, numa cidade completamente aleatória da Índia que não fazes ideia de como localizar no mapa, de noite, à espera há cinco horas de um autocarro que deveria ser proibido andar durante mais de 30 minutos, com assentos mesmo muito pequenos e rijos, que te vai levar durante 17 horas ao teu tão desejado destino, onde não tens nada nem ninguém à tua espera?

Dez dias e mais de 71 horas de caminho. Porquê sair da zona de conforto, quando até se está a recuperar de uma sinusite um tanto ou quanto complicada, contra as vozes tendenciosas para me deixar ficar em casa (indiana), e viajar tantas horas em direcção ao desconhecido? Não faço ideia mas mais uma vez a grande lição se aplica: ir, somente. Nada te espera e tu nada esperas. No entanto, no fim, nada podia estar melhor planeado e todos os amigos estiveram lá.

 Isto tudo para dizer que ir sem companhia não é sinónimo de andar sozinho e que ir sem um objectivo concreto não é sinónimo de não ter significado. A diferença é que tudo se vai encontrando no caminho, de forma inesperada, fascinante e, sem dúvida, especial. Viajar sozinho, é viajar com tudo e todos à nossa volta. É estar-se livre para se fazer o que se quiser, para caminhar numa rua sozinho e no virar da esquina já se ter criado uma boa amizade, para se pôr o pé na rua decidida a comprar souvenirs e afinal ir dar uma volta de mota pelos sítios mais belos. É claro que nem tudo são rosas mas a recompensa é grande!

MCLEOD GANJ/BUGSO/DHARAMKOT, Himachal Pradesh

RISHIKESH, Uttarakhand

Uma Religião, Muitas Guerras

Pediram-me para escrever sobre religião (obrigada disorder-division por toda a atenção). O que sei ou percebo eu sobre religião? Por aqui têm-me perguntado recorrentemente qual a minha vertente religiosa ou, simplesmente, se acredito em Deus. Ora… sou capaz de elaborar uma resposta suficientemente complexa para não poder ser dada nesses momentos, de modo que tenho acabado por dizer qualquer coisa como “interesso-me por todas as religiões” ou “acredito em espiritualidade”. Não sei até que ponto estas respostas satisfazem os tão devotos hindus mas, decerto, mais do que os fanáticos muçulmanos.

Tive uma conversa a meias palavras com uma pandit (equivalente a padre hindu) de um templo perto de casa que me elucidou e satisfez relativamente ao hinduísmo. Duvido que haja religião mais complexa, com mais deuses, namoradas/mulheres de deuses, dias celebrativos e rituais a acompanhar. Mas em que é que acreditam os hindus? Que um ser humano azul, chamado Shiva, existiu de facto? Em todas aquelas lendas e amuletos (fitas, colares, pulseiras, etc.)? Até que o engraçado Pandit me disse: God is everything. Is this and this and this (apontando para vários objectos). Is sun (apontando para o céu já cheio de estrelas) and soil. God is energy (arregalando os olhos diabéticos e dando um tom misterioso ao que lhe saía pela boca). Pois é… Deus é tudo. É tudo o que quisermos, basta acreditar. É aqui que reside o mistério dos hindus: são verdadeiros crentes! Do levantar ao deitar enchem-se de rituais. Em minha casa, por exemplo, o “pai”, conhecido por Baba por “levar uma vida de santo”, faz o seu circuito por vários pontos da casa (ora onde tem pequenos templos, ora onde tem fotografias de santos ou familiares). Neste percurso diário faz as suas rezas acompanhando-se de vários incensos e velas. Quando chega a casa, ao anoitecer, depois de vir do templo, faz o mesmo.

Cada dia está reservado a uma celebração ou a um Deus, portanto, todos os dias é desculpa para demonstrar mais uma crença, quer seja através do jejum, através de uma dieta específica ou de uma dança.

O ser humano precisa de acreditar. Não consigo imaginar alguém que já tenha vivido um número considerável de anos e que nunca se tenha virado, nem que seja para si mesmo, à procura de forças. Se não é em Cristo, é na Bruxa; se não é na missa, é na cura perânica; se não é num deus, é em nós mesmos.

Não sei se consigo escrever muito mais sobre religião… Coisas práticas? Os hindus andam em manifestações contra os muçulmanos porque lhes andam a matar as vacas. Se há lago, por maior antro de doenças que seja, com templo por perto, é água sagrada e aí todos se banham sem preconceito. Não há regra de não mostrar o ombro, até as mamas vão à água. Tudo o que há para fazer na Índia é ir ao templo. A cada passo que se dá é templo: em casa, na rua, no autocarro, no jardim… A propósito do Jainismo… os sagrados/puros vivem despidos e deslocam-se com uma série de seguidores atrás. A religião aqui reflecte-se em tudo o que se faz, guia as regras do lar e a conduta na rua, por exemplo, o caso da menstruação que já contei numa publicação anterior. No outro dia fui a um templo aqui com a família e puseram-me a fazer o ritual de ajoelhar e juntar a cabeça ao chão, pôr uma pinta de sândalo na testa, tocar o sino e dar voltas ao templo. Senti-me pouco confortável a faze-lo porque para mim não faz sentido se não estivermos com o pensamento ou alma em algo até que perguntei se pensavam em algo quando faziam estes actos sagrados e tão apressados. A resposta foi um simples: não.

Wondering about time in Bilara

Fartei-me de escrever nos dias em que estive em Bilara (de quinta a terça-feira) mas acho que merece um resumo. Desde Jaipur que soube que tinha que passar uma semana em Bilara (uma vila a uma hora e meia de caminho de Jodhpur) e desde aí que não achei piada à ideia. Primeiro porque não gostei da forma de como me foi “sugerido” e depois porque era para ficar em casa da família do Chefe (com quem não faço questão de contactar), numa vila onde “não há nada”, todos me avisaram. Já estava mentalizada que ia mas com os quatro dias de adiamento a minha paciência já estava a escapar. A acrescentar, fui preparada para três dias, quando me informam que tenho que ficar até ao fim da semana seguinte (negociei de modo a estar em Jodhpur para o feriado de quinta-feira, dia 25) e levada para o meu quarto: um cubículo anexo à escola com uma cama e uma casa de banho. Nem pus em hipótese! Fiz-me de esquisitinha e perguntei se não podia ficar com a família. Problema resolvido. A poucos metros de distância já tinha entrado no íntimo duvidoso do Chefe. A casa de ares coloniais, onde agora apenas vive uma avó (com um furo na orelha de 2 cm onde, para além do alargador de ouro, tem atado ao buraco um cordão preto com ligação ao cordão que dá a volta ao pescoço, para prevenir que o brinco, já pequeno demais para a pele aberta, caia) com uma das suas netas (que anda em jejum quatro dias por semana) e uns quantos servants, parecia atrasar o tempo. Duplica-nos cada minuto para que possamos contemplar melhor o verde, o descanso e os finais de tarde que faltam em Jodhpur. Passei os fins do dia sentada no banco de baloiço a ver um dos criados de 17 anos a lavar a loiça com a terra do quintal, a olhar para o reflexo dourado nas plantações de algodão e a tentar ver os morcegos nos ramos das árvores. Admito que de início comecei a desesperar com o facto de não ter nada para fazer (ou com quem falar) mas as manhãs na escola revelaram-se merecedoras dos meus dias de pausa… alunos inteligentes e bem-comportados, o tempo não custa a passar ali.

De tarde sempre fui dando uns passeios, a templos, a uma loja de pintura onde o dono me oferecia sempre gelados, no fim de semana estive em casa da directora onde pude conversar com o seu filho e com uma rapariguinha de 12 anos com deixas como “the governemnt is sleeping” a propósito da pobreza na Índia. Ao passar na rua notei que algo se passava e a minha curiosidade levou-me a mim, ao filho da directora e à menina de 12 anos (que me ofereceu uma pulseira e pediu que nunca a esquecesse, manifestando a sua vontade de falar comigo para sempre) à casa daquelas pessoas. Uma banda que descansava à porta da casa, prontamente se levantou e nos ladeou com uma música de boas-vindas. Como o filho da directora disse “foi como se fossemos rei e rainha” (fico feliz que um indiano tenha experienciado o que tantos estrangeiros têm sem sazão). O chão da casa não se via com tantas mulheres e crianças sentadas. Pegaram em mim e puseram-me num círculo onde cantavam em tom ritualístico e desafiaram a minha voz roca e a minha falta de ar (mais uma vez, ando doente) a acompanhá-las. O filho da directora, que até há um ano levava a boa vida de Jaipur mas que agora não sente mais que aborrecimento em Bilara, disse que tinha sido o melhor dia dele em Bilara. A minha estadia já valeu de alguma coisa!

Fiquei sem papel higiénico. Não imaginam a minha irritação! Não é por não haver papel higiénico, é pelos indianos prometerem e dizerem que tudo existe e no fim o guardanapo que me dão é uma toalha de mãos e por ninguém me ser capaz de explicar como é que me posso limpar com água como eles! Lá descobriram na vila inteira um pacote a metades de papéis de café não absorventes.

No último dia as professoras da escolinha ofereceram-me uma camisa para que nunca me esquecesse delas e dissera-me que iam sentir a minha falta. Uma delas ofereceu-me uma pulseirinha. Embora me custe receber toda esta adoração pelo simples facto de não ter feito absolutamente nada agradeço e fico sensibilizada. Que alegria que é ter sido importante de alguma forma para tanta gente (ou ter sido um objecto enviado para Bilara para entreter aquelas pessoas aborrecidas)!

Houve ainda um momento de suspense nesta minha ida. Onde há fumo há fogo, minha gente! Se tiverem curiosidade é só mandar mensagem.