Que nem uma indiana

Finalmente a comer que nem uma indiana. De mão na batata, nos vegetais, no arroz e nos doces. A cortar o roti (chapati) com apenas uma mão, a comer depressa, para não dar demasiado tempo ao picante, e muito.

Durante o primeiro mês comi de tudo, no fim já estava uma pró da comida indiana, até que fiquei doente e me andei a conter até hoje. Espero amanhã não acordar arrependida. As forças estão a voltar!!!

Em busca de sentido

 A Índia é o belo e é o absurdo. É o sonho e a mais pura das realidades.

Que força foi esta que me fez vir para a Índia? Será que é uma vontade da humanidade no geral? Será que toda a gente se projecta a viver aqui? Esclareçam-me, por favor.

Se calhar o acertado é não procurar estas respostas, tenho um pequeno pressentimento de que serão as mesmas para o sentido da vida e isso parece-me uma tarefa demasiado difícil. Mas mais difícil é impedir-me de um dos meus passatempos predilectos: encontrar respostas para o comportamento humano.

Não sei o que me fez vir para aqui mas sei o que é que encontrei. No fim, apenas isso me vai servir de alguma coisa. Passado ano e meio de ter deixado a Turquia percebo que, no meio de tanta coisa que para lá aconteceu, aprendi uma em especial: a confiar. A confiar em mim [não no sentido de me sentir confiante mas na minha capacidade de fazer e no meu sexto sentido, sinto que sou uma pessoa de confiança para mim mesma (espero que isto tenha feito sentido para alguém)]; a confiar nos outros (embora saiba que a mente é traiçoeira); e no mundo (se fores feito de boas intenções e confiares, o mundo retribui).

Pondo as coisas nestes parâmetros, a Índia tem-me revelado muito sobre a família. Não é o casamento ou a liberdade condicionada, não são as diferenças impostas por um nome (casta), não é a ida ao templo ou a crença desmedida. Não é isto que mais me tem ensinado ou chamado mais (quero dizer excessivamente) a atenção. Aqui tudo é para e pela família. Independentemente de tudo o que mencionei, a família é o centro. (Devo dizer que quase de certeza que não perceberia isto se tivesse vindo numa breve passagem turística). Foi aqui que tomei consciência, de forma incrível, do tamanho amor que tenho pela minha família e não duvidar, nem por um segundo, que é maior do que o amor e obsessão que qualquer indiano possa ter pela sua.

Tanta converseta filosófica mas a resposta para ter vindo até é fácil: estava aborrecida! Claramente que Portugal me estava a aborrecer. Mas então porque não arranjar um trabalho de uma vez por todas, por exemplo? Medo. Medo de não saber fazer (ainda bem que vim então trabalhar para o outro lado do mundo, numa área que em nada me é familiar, numa língua totalmente desconhecida). Medo de não voltar a sair de Portugal. Alguém que me ajude a desvendar o segundo medo. Geralmente o pessoal viaja… Uma semana, quinze dias… Oiço imensas vezes “já estou cansada de Portugal, queria ir viajar! Ir uns diazinhos a Paris ou à Holanda”. Hm :x Soa-me a vazio. Mas porquê este pavor a permanecer no meu país ao qual reconheço tanto valor? Eu e o meu amigo Jerónimo costumamos brincar com a expressão, muito brejeira, “a vida é um jogo”. Mas realmente é! Cheia de peripécias, de momentos de tensão e conquistas, de aliados e de outros que só existem para nos dificultar ganhar pontos. Vivemos da curiosidade da carta seguinte e do esforço que pomos a resolver cada tarefa. Queremos um jogo que mexa com as emoções, que nos faça sentir e, de preferência, que nos dê alguma adrenalina mas quando o sabemos de cor damos voltas e voltas ao tabuleiro e a vitória já não sabe a nda. É aí que se vai ao Google procurar novos jogos. Acho que saltei alguns níveis de dificuldade mas se a intuição dizia Índia para quê esperar? Na verdade só me imaginava aqui nos meus 40 anos… Uma pessoa experiente, capaz de retirar muito de um país tão complexo mas aqui estou eu aos 22 a adorar.

Eis que recebemos a visita de um tio. Antigo condutor de comboios, entre eles um chamado Palace on Hills, e vencedor de competições de ciclismo, que agora se divide entre uma perna sem força que o obriga a um andarilho (mesmo assim e com falta de visão e audição conduz mota, que perigo!) e a uma visita diária ao templo, onde escreve durante seis horas o nome de Deus.

Sem demoras pôs-me pó-talco na mão e leu-me a sina. Pedi para não me dizer a leitura mas “vais ser rica! E vai ter uma longa vida!”. Perguntou se acreditava em Deus, não sei no que ficou a magicar. Disse que tinha feito boas acções no passado e que era por isso que agora estava na Índia. (Mesmo a tempo de responder às minhas dúvidas!) Que o nascimento na minha próxima vida vai ser na Índia.

É o absurdo e o belo a acontecer. O inesperado de uma tarde esperada mais do que normal. Tal como o acidente que ia tendo na vinda para casa. No meio do trânsito, num cruzamento, a mota onde ia estava prestes a ser atropelada por um camelo, vi-o perto demais. Sinto-me pasmada por alguns segundos, nem em sonho! No entanto, no segundo seguinte já tudo se disseminou na percepção do real e se misturou com o normal.

Os Fins-de-Semana em Jodhpur

O dia soube-me bem. O calor não estava nada por aí além por isso lá me enfiei no autocarro que passa à frente de casa até ao centro da cidade. É claro que demorou imenso tempo e que encheu tanto que à saída demorei quase cinco minutos para percorrer o metro que separava o meu lugar abafado da porta. Encontrei-me com o meu companheiro de visitas à cidade e lá andámos a vaguear de mota enquanto pensávamos num sítio para irmos. Como estava demorado e o calor afinal era algum, parámos durante um bocado para viciar em batidos de ananás com gelado. O que me apetecia era uma lugar relaxado, numa sombrinha ao ar livre com uns bancos/pufs confortáveis… o que tive foi um dos típicos cafés onde fritam tudo à nossa frente, escuros e muito pouco confortáveis mas os batidos eram uma delícia e mais baratos que o habitual (25 rupias cada). Lá decidimos metermo-nos pelas ruas de um dos mercados mais famosos de Jodhpur chamado Tripolia Bazar. É famoso pelos têxteis mas também podemos encontrar ruazinhas de especiarias. Ah, que cheirinho! Traz-me lembranças de Istambul! Fui com a irmã dele, a Cheetal, a uma lojinha, super escondida (tínhamos que entrar por uma porta pequena, subir umas escadas e afastar umas cortinas de plástico grosso até lá chegar), de bugigangas (bugigangas é como quem diz, visto que aqui é praticamente tudo ouro e prata), só comprei dois totós pretos para apanhar o cabelo. Ao fim da tarde fomos os três até um dos pontos mais altos da cidade, um jardim onde, para além da relva e dos arbustos, se ergue a “Torre Eifel de Jodhpur” ahah Não… é só a antena de sinal televisivo. Depois do pôr-do-sol, lá fomos os três montados na mota até minha casa. No caminho, começo a ver um grande grupo de pássaros a voar na direcção oposta… que bonito! Os pássaros pretos a voar no céu azul escuro, ainda não negro. Eu e a Cheetal vamos a cantarolar, ela, as suas músicas indianas e eu, as minhas musiquinhas em inglês. Sabe bem com o vento da mota. Bem… mas os pássaros nunca mais acabam – penso eu. Até que começo a notar algo de diferente naquele voar… É um voar lento, algo sinuoso. Um dos pássaros passa mais perto de mim: são morcegos! Parecia mesmo que estavam a invadir Jodhpur, tantos e a bater as asas daquela forma suspeita, em direcção à cidade…

Em casa tive a melhor surpresa do dia. Finalmente consegui conversar com a minha mãe sem ser por escrito!!! Não é fácil conciliar os horários da vida portuguesa com os da vida indiana. Que regalo! Falámos, falámos, rimos. Fiquei feliz!

Depois da conversa tinha uma série de snacks indianos à minha espera, que a família indiana tinha trazido da cidade. Mnhami, mnhami, mais uma vez, cheia que nem um javali.

Domingo. Fomos até à casa de cidade. Toda a família estava lá, fez anos que o “avô” iniciou outra vida. Se há coisa que me dá prazer são reuniões familiares. Adoro o à vontade de todos, a oportunidade de estar num ambiente familiar e se poder pôr a conversa em dia, a comida, o fortalecer de laços já tão fortes. Deu para ver fotografias de quando todos eram mais jovens e para ouvir e tocar alguns instrumentos tradicionais indianos (tablat, harmonic e outros que não sei o nome).

No final destes dois dias de descanso senti-me preenchida. Ao fim de nem dois meses conheço pessoas que adoro, com quem tenho a oportunidade de viver momentos que dão todo o sentido a esta estadia.

Finalmente, verde. Amber Fort. Não entrei. Em vez disso, aproveitei a companhia de um indiano aleatório e andei forte acima, aldeia abaixo, a rechear os olhos de verde antes de voltar para o deserto. A companhia inesperada levou-me até uma casa de Dumbos… pobrezinhos, acorrentados; mas os homens não ficam atrás, não têm correntes mas passam o dia como o companheiro elefante, ali, naquele sítio.

Jaipur. Cidade cor-de-rosa. Cidade das pratas e das pedras preciosas. Cidade dos mercados e dos elefantes. Cidade de “living the good life”, como o Australiano que lá vive há mais de um ano me disse.

Pushkar. Impossible to put in pictures. Maybe by a video!!!

Tirar a barriga da miséria

(Escrevo ao anoitecer, mal consigo ver as palavras que desenho. Ao fundo, sentado no cimo de uma espécie de torre, um macaco partilha a mesma vista que eu.)

Lá em baixo junto ao lago as vacas vagueiam que nem cães. As luzes vão-se reacendendo com o finalizar da reza que passava no megafone. Outras rezas ainda se ouvem em torno do lago. Depois de uma tarde de ofertas aos deuses e de banhos na água sagrada do lado de Pushkar as pessoas continuam nos degraus junto à água para um último banho abençoado. 7.30h e já é de noite, os dias estão muito mais pequenos. A lua ilumina todo o vale, a música continua.

Os dias têm passado a correr e parece que se passou uma semana quando na verdade apenas três dias se passaram desde que saí de Jodhpur. Só de pensar que pus em hipótese não vir por causa da chuva… Realmente, é verdade que nos encostamos com muita facilidade ao conforto e à segurança do dia-a-dia e isso faz-nos perder todas as oportunidades de viver, de ir e descobrir.

Então, como tudo se passou… no outro dia vi o calendário de feriados escolares e soube que este mês vou trabalhar três semanas seguidas sem interrupção pelo que decidi aproveitar o feriado de quinta-feira e pedir para não trabalhar sexta para que pudesse ir até Jaipur e Pushkar.

Terça à noite pedi autorização e comprei o bilhete de comboio para o dia seguinte. Quarta-feira começou a chover torrencialmente. Quer dizer, passou-se a monção toda no real deserto e logo nos dias que decidi ir passear tinha que estar a chover e a trovejar daquela maneira. Pus em causa a minha ida a Jaipur mas lá desliguei o botão “pensar” e fui esperar o autocarro na companhia da mãe indiana. Bem, só a ida de trinta minutos de minha casa até à estação de comboios foi uma aventura: chuva por todo o lado, dentro do autocarro, toda a gente a observar-me persistentemente, etc. Enfim, não estava a contribuir para a minha segurança de ir em viagem mas o truque é não olhar para trás e continuar a andar. Já com os pés todos sujos num misto de lama com toda a porcaria que possam imaginar que há no chão indiano (xixi, gasolina, escarra, etc.) lá me sentei no comboio no comboio e, num exercício de tentar perceber o que acho e sinto relativamente à Índia, fui acompanhando os fortes relâmpagos capazes de iluminar toda a paisagem até chegar a Jaipur.

Ora esta viagem teve um tom bastante diferente do que o que esperava mas não deixou de ser bonita e de me ensinar bastante. Foi como tirar a barriga da miséria! E claro que teve os seus, já esperados, percalços. Ao fim ao cabo, história não é história se não tiver um vilão. Muito resumidamente, na terça-feira telefonei à pessoa responsável pelo meu contracto e dono da escola onde trabalho se me podia ceder a sexta-feira. Para além de aceitar o meu pedido, o Chefe ainda se ofereceu para me ir buscar à estação de comboios de Jaipur e levar-me até a um hostel que tem um acordo qualquer com a AIESEC e que portanto, não precisaria de pagar a estadia. Chegada a Jaipur fomos até um restaurante chamado Peacock… fiquei maravilhada… que chique! Os meus olhos brilharam ao ver a casa de banho. Ocidental, com bonitos azulejos e num brinquinho! Que gosto estar naquela casa de banho! Subi até ao terraço e uma série de estrangeiros da minha idade ou uns anitos mais velhos acabavam as suas refeições ocidentais e as suas cervejas. Era com eles que íamos ter. A falta que sentia disto! Pessoal da Austrália, Colômbia, México, Polónia, Irão, Congo, Brasil… Um verdadeiro “tirar a barriga da miséria”! Uma das brasileiras chamava-se Carolina, para ajudar à minha explosão de identificação. No entanto, falar português soou demasiado estranho, a conversa com as brasileiras dividiu-se em palavras em português de Portugal, do Brasil, em Espanhol, Inglês e Hindi. Demasiado estranho pensar em português. A vida que este grupo leva em Jaipur é totalmente diferente da que levo em Jodhpur, uma vida cosmopolita, de jantares, convívios internacionais, festas. Com o “chefe” a dizer que já era tarde que tínhamos que ir embora porque no dia seguinte ia para Delhi lá fomos embora. Afinal, já não ia para o tal hostel (segundo ele, estava sobrelotado) mas sim para um hotel de 4 estrelas chamado Ramada. Já não estava a achar piada à conversa mas àquela hora não tinha grande escolha. Então, depois de me assegurar de que o quarto tinha duas camas lá fui. Bem… o luxo continua… uh lá lá! Chego ao quarto e vejo apenas uma cama de casal. AI MEU DEUS! Ainda bem que é proibido o porte de armas senão a Índia tinha ficado com uma pessoa a menos naquela noite. Chateei-me com o imbecil do Chefe (com o qual apenas tinha falado duas vezes, nunca tendo simpatizado com ele), até evoquei a irmã dele mas a resposta não passava de um nervoso “you are so funny”. Fiz com que pedisse um quarto com duas camas. Não havia, então pedi um cobertor e dormi, confortavelmente, no chão. É claro que antes de conseguir dormir o desprezível do Chefe ainda tentou obrigar-me a conversar com ele. Quem me conhece pode tentar imaginar a minha expressão extremamente zangada, indignada e enjoada. Na manhã seguinte tive a recompensa de um deitar tão atribulado: banho de água quente e pequeno-almoço dos reis! No entanto, no meio de tanta escolha com o aspecto mais delicioso de sempre houve algo que me chamou mais à atenção. Plano geral no buffet, panorâmica sobre as mais diversas opções, olhar para numa direcção, zoom in, zoom in, CHOCAPIC, panorâmica rápida para a esquerda, COLD MILK! Feito! Obrigada senhor! Acompanhado com croissants e sumo de laranja foi do melhor que há. Um verdadeiro “tirar a barriga da miséria”!

(Escrevo já em casa, em Jodhpur.)

Fui para o centro da cidade. A humidade era muita e com a chuva acabei por ficar algum tempo numa loja a lamentar-me junto do indiano sobre o facto da minha lente estar cheia de humidade e água no interior. Embora estivesse super transtornada a minha reacção foi de vazio, sem reacção. Para relaxar e enquanto esperava que a chuva acalmasse, o vendedor de roupa lá me ensinou alguns exercícios de yoga e me vestiu um saree. A chuva passou, assim como a névoa dentro da lente da câmara. Saí do refúgio, um pátio com árvores e um templo, e fui logo agarrada por dez indianos que, simpaticamente, me levaram até ao terraço das suas lojas de prata, onde me deparei com uma vista privilegiada sobre o famoso Hawa Mahal. Aconselharam-me a ir ao Amber Fort e lá fui eu. Finalmente verde! Uma muralha delineava as montanhas que rodeavam o forte e a pequena aldeia. Andei por lá a explorar com um indiano que decidiu que queria treinar inglês comigo e que me levou a uma casa de elefantes, podia ter andado de elefante mas depois da experiência com os camelos decidi ficar-me pelas festinhas. Voltei para a cidade, com passagem por um palácio meio submerso, onde andei por umas ruazinhas com um senhor condutor de Auto a visitar lojas de roupa e de velharias. Terminei o dia no templo mas não serviu para alinhar os chakras… mais parecia uma rave com tanta gente e barulho. Fui ter com um dos rapazes que tinha conhecido no jantar do dia anterior e recebi uma chamada do Chefe a tentar encontrar-se comigo e a dizer mal do tal rapaz (só porque é negro). Não podia ter tomado melhor decisão do que ir ter com o Devon e ignorar os avisos do desconfortável Chefe. A partir daqui o Chefe começou a ter reacções altamente preocupantes, a tentar controlar onde é que eu estava, achando que lhe devia algum tipo de informação e a falar, de forma super revoltada do Devon. Para além disso onde quer que dissesse que estava, tentava encontrar-se comigo. Com o resto do grupo dos estrangeiros da noite anterior fomos a uma discoteca/bar. É claro que o Chefe apareceu e não parou de me matar e ao Devon com o olhar e é claro que fugi dele e que dormi em casa dos novos amigos. Mais uma casa impecável *.* Nestes dias dormi bem como não dormia há muito! Tomámos o pequeno-almoço no terraço. Frutos, torradas, chai, omelete, biscoitos… De seguida fomos buscar a minha mala que o Chefe tinha deixado no hotel e fiquei a visitar os mercados com o meu novo companheiro de viagem que veio de Jodhpur para passear comigo até Pushkar e voltarmos juntos para a cidade de origem. Já tinha conhecido o lado verde de Jaipur (fez-me lembrar o que o meu imaginário diz como a China é), agora, já com sol, era tempo de me entranhar no mundo de cor da cidade cor-de-rosa. Depois de almoçar onde os escritores de Jaipur se encontram para trocar ideias e ter longas conversas, mergulhámos nos mercados. Elefantes pintados com cores vivas e cavalos com as “unhas” pintadas de cor-de-rosa choque encheram-me ainda mais o olhar sobre um mundo surreal. Nem nos meus mais rebuscados sonhos poderia encontrar tanta cor. De noite, jantámos num bar com a maior mistura de músicas possíveis e seguimos para mais uma discoteca onde dançámos até às duas da manhã (o meu amigo indiano pediu para passarem o “Nossa! Nossa! Assim você me mata! ai se eu te pego…”  que cantámos meio às gargalhadas). Os amigos dos dias anteriores também apareceram e dançou-se música de discoteca como se de música africana se tratasse. O pessoal do Congo a representar! Curiosidades: em vez da estratégia do ambiente quente usado nas discotecas europeias, aqui o ar condicionado é levado ao extremo; eu sempre vestida como se fosse para a praia contrastei com as turcas de mini-saia; o número de pessoas nas discotecas contam-se pelos dedos das mãos; o chão está sempre imaculado. Dormi no tal hostel prometido desde a primeira noite (ainda bem que pude poupar dinheiro nas duas primeiras noites) e acordei pronta para mais um pequeno almoço de cereais com leite frio, desta vez, ao som de uma conversa sobre viagens com outros turistas/viajantes ingleses.

Partimos para Pushkar com uns bilhetes baratíssimos (60 cêntimos) que nos permitiram ir numa carruagem apinhada. A entrada foi uma verdadeira luta, toda a gente quer conseguir um lugar. O calor faz-me adormecer mas não tenho sítio onde pousar a cabeça, tento a mala que está em pé entre as minhas pernas. As migalhas de comida estão constantemente a cair do acento de cima e não vejo mais nada senão pés. Nitidamente que o meu amigo indiano está incomodado. Com outros dois novos amigos (da Suíça e do Nepal) procurámos um sítio barato para dormir, o destino deu-nos quartos sobre o lago pelo simples preço de 4 euros cada. Fui buscar energias ao único templo de Brahma do mundo e deslizei pelo rio de cor, cheio de tentações ao bolso de qualquer um, do mercado de Pushkar. A volta foi feita junto do lago… que magia! Que sonho! Aqui acabam-se as regras das vestes, mulheres despreocupam-se com o mostrar do corpo ao banharem-se na água do lago. A crença é tão grande! É claro que aqui o negócio não é esquecido, tentam pôr-nos flores na mão, ensinando-nos como as atirar ao lago com a surpresa final de pedido de dinheiro (esta parte não me aconteceu, consigo abstrair-me o suficiente para eles perceberem que não estão a ser ouvidos). O final do dia parece prolongar-se, a magia é grande o suficiente para lhe ser concedida uns meros trinta minutos de pôr-do-sol. Várias pessoas tocam instrumentos junto ao rio, as tablas destacam-se. Velas e pequenos fogos são acendidos, está na altura de rezar. Volto para o hotel e fico a olhar tudo cá de cima.

No dia seguinte sinto que tenho que aproveitar o pouco tempo que me falta, pela hora de almoço tenho que estar de volta a Ajmer para apanhar o autocarro para Jodhpur. O pouco tempo em Pushkar não me satisfez, não deu para tudo o que a minha vontade queria. Consolo-me dizendo que posso voltar noutro fim-de-semana mas conheço-me o suficiente para perceber que é pouco provável que aconteça.

No terraço do hotel, preparada para me ir embora, desata um macaco a saltar apressadamente por todos os terraços na minha direcção, da minha carteira e da minha câmara fotográfica. Corri em direcção à porta do meu quarto que já estava fechada. Só escapei àquele macaco desvairado de dentes à mostra porque bem decidiu continuar em frente depois de me aterrorizar. Saí para uma última volta e comprei três saias lindas (não indianas, nenhuma indiana veste aquilo) por 7.70 euros e uns terços para trazer comigo a crença, a esperança, que se vive em Pushkar.

Já estou em Jodhpur, foi bonito voltar mas sinto saudades destes últimos dias. A “mãe” indiana disse que pareceu que tive fora um mês e que já tinha saudades, fiquei feliz por fazer parte. Amanhã estou de volta ao trabalho. Como será de agora em diante com o Chefe? Já está na hora de receber o salário, também… Acabou-se a pápa doce mas soube bem tirar a barriga da miséria!

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Bem… acho que chegou a altura de contar o que ando a fazer, afinal, por terras indianas.
Todas as manhãs me levanto às 6 da manhã para estar pronta às 7h, fazer um caminho de cerca de 25 minutos de mota até chegar, finalmente, à escola, onde tenho...

Bem… acho que chegou a altura de contar o que ando a fazer, afinal, por terras indianas.

Todas as manhãs me levanto às 6 da manhã para estar pronta às 7h, fazer um caminho de cerca de 25 minutos de mota até chegar, finalmente, à escola, onde tenho que assinar a folha de presenças até às 7.30h. No início acordava às 5.50h mas acho que o facto de ter o número 5 tinha um efeito bastante doloroso no meu acordar, já para não falar das noites sem dormir ou de constante acordar que duraram cerca de três semanas, então mudei o despertador para as 6h.

Estou então a trabalhar como professora, e não, não é em modo de voluntariado, é trabalhar como uma verdadeira cidadã indiana que recebe umas míseras 11000 rupias ao fim do mês. Agrada-me bastante a ideia de viver os países, de perceber como é a vida realmente em vez de viver uma vida paralela como costuma acontecer no típico ambiente de Erasmus que acontece sempre que se está dentro de um grupo de jovens todos com o mesmo propósito. Nestes casos constitui-se uma espécie de comunidade e vive-se de acordo com ela. Nada melhor para viver como uma indiana que arranjar um emprego indiano completamente comum e estar inserida numa família, como estou.

Ora achava eu que ia para uma grande escola… privada, com um nome sonante “RSM International School”, com direito a website onde podia ver uma fotografia da escola… wow! Que luxo! Pensava eu até ver a escola ao vivo e deparar-me com um cenário totalmente diferente do prometido. A escola foi aberta há quatro anos e o segundo andar ainda está “under construction” (quem diria!). Admito que lhe dá toda uma nova dinâmica… não sei como constroem o andar de cima mas de vez em quando é como se estivéssemos a ser atacados por bombas, por outro lado, novos elementos vão surgindo como novas zonas em pedra para beber água! “Chique a valer”

Tinha aqui uma coisa guardada a propósito do meu primeiro dia na escola:

Today was my first day as an intern, as a worker abroad, as a stipendiary worker. More than everything, it was the first time I worked on something I didn’t have a clue on how to.

First,  taking a motorbike lift to school by one of the teachers. Second, sitting on the library/teachers’ room while they speak in a totally unknown language while staring at me. Third, standing in the front of 40 centimeters height kids without knowing what to do as soon as I understood that communication was almost impossible between us.

“Let’s start with a song!” (Every kid starring at me as If I was some member of Monsters & Co.) “Let’s learn the alphabet letters!” (They don’t understand that it is to repeat what I say or maybe they’re just shy). So, I start to feel embarrassed and with that my expressions and acting skills just got really exaggerated… to my surprise they started copying my gestures!

After that I got more close to them. We played, gave them food, carried them, let them touch my hair (now I started to feel hitchy, don’t know if I got something from them or if I am just beeing paranoid or it’s this weather that is drying all my hair). In the end I think my presence was useful. They realized that they had to communicate with me on another language, and so they started: “cat”, “cat”…

While all this was going on, other students, from 9th grade, went to the classroom’s door to meet me, telling me “we love you, Mam!” and inviting me to go to their houses; also asking which subject I was going to teach them (none, I’m reserved for the ones who don’t understand me)! Every time I was walking through the corridor I felt all heads turning at me and whispering on the other side of the glass. I’ve met there a ex-teacher who recently got married, I felt very interested in what she had to tell about her arranged wedding, and who told me that when she was entering school every student were  saying that a foreigner was there! I guess I can’t disappoint these kids!

Bem… noto uma grande diferença na energia que tinha no início e na que tenho agora. Com dias e dias de grande calor e poluição em cima e já doente por duas vezes, com dificuldades em descansar, é normal que assim seja. No entanto, agora lido muito melhor com as crianças! Conheço-as bem! No princípio parecia ser impossível decorar os nomes deles, aprender palavras em hindi… agora sei as necessidades de cada um, o que os mantém interessados, as manias e formas de reagir de cada um… e adoro cada um deles!

Muitas foram as peripécias já… Deixo aqui um apontemanto que fiz no início do mês passado:

Uma criança estava tão confortável ao meu colo que decidiu brindar-me com um grande xixi quentinho! Ora, é claro que parecia que eu é que tinha feito xixi nas cuecas e é claro que isto só podia piorar: foram-me chamar para ir dar aulas ao segundo ano. Sabia lá eu o que é que eles estavam a dar ou qual era o nível de inglês daquelas crianças. Levam-me para uma sala e lá me deixam em frente de 20 pequenos vestidinhos de amarelo. Mal começo a ler a história da página na qual me tinham aberto o livro começam-se todos a rir, pois é.. se calhar não devia ter dado tanto ênfase na leitura! Já não me levaram mais a sério. Gritaria, brincadeira, até um berlinde me deram no meio de tudo isso. Lá vêm duas professoras, a turma acalma-se. Aqui tem-se medo dos professores.

Depois das aulas, os professores foram convocados para uma reunião com a directora. Desde aí que me tenho sentido mal, cerca de 100 euros é o ordenado destes professores, sendo que a directora apenas lhes vai pagar metade do ordenado este mês como forma de os assegurar naquela escola até ao final do ano lectivo. Parece-me que essa não é a melhor forma de manter pessoas por perto, assim como aterrorizar crianças não é a melhor forma de os pôr a trabalhar. Também estou preocupada comigo, afinal que raio de ordenado vou receber? Ai, India, India… muitque'taturo!

A 7 de Agosto choveu. Uma delícia para todos. Especialmente para mim, que só tive 7 alunos e tudo foi mais produtivo e divertido. Peguei num pano e mascarei-me à velha, as crianças deliraram, as professoras vieram todas espreitar a alegria daquela sala e ficaram à porta a rir-se.

Um dos meus alunos chama-me mãe, avó à auxiliar e tia mais nova a uma professora que me é muito querida que costuma passar pela minha sala todos os dias. Demasiado comovente.

Ora, nem tudo são rosas e mesmo quando são esté sempre tudo cheio de espinhos. Há cerca de duas semanas passei uma semana a dar aulas sozinha! Passados muito pouco tempo de me ter juntado à escola já estava ali entregue aos bichos. A outra professora indiana tinha desistido e posteriormente a auxiliar também se despediu. Conseguem imaginar o desespero de tentar chegar às necessidades de 16 crianças entre os 2 e os 3 anos de idade? Xixi (houve muito xixi naquela sala nessa semana, com o tempo que demorava a gritar por uma auxiliar no corredor e o tempo dela chegar e levar a criança à casa de banho já duas roupitas estavam todas enxarcadas), dar de comer, fazer com que não chorassem e que não lutassem nem se magoassem, proibir que subissem às janelas e enchessem tudo de areia dentro da sala (entretanto, já estava tudo sujo), brincar, ensinar inglês, etc., e no meio disto tudo não perceber nada do pouco que eles sabem dizer em hindi e não saber dizer nenhuma palavra que eles percebessem também. Depois de começar a pensar que não ia aguentar os meses que me faltavam surge, terça-feira uma professora! Tem experiência com crianças e conseguiu pô-los na linha. Tudo me parecia melhor quando no dia seguinte, por maior do meus espantos, a professora tinha abandonado o cargo. No final da manhã apareceu uma professora substituta… coitada! Até eu percebo mais de crianças do que ela e vá… mesmo que não tenha experiência enquanto educadora, tem um filho! Passado um dia e meio já tinha outra professora a substituí-la… já está há uma semana comigo, será que vai continuar? Hoje disse-lhe que amanhã ia ensinar outras classes. Respondeu com cara de pânico e usou o seu inglês muito fraco para perguntar como ia dar conta do recado sozinha. A sua sorte é que entretanto contrataram uma auxiliar exemplar, melhor auxiliar de sempre! As crianças adoram-na, limpa tudo, leva-os à casa de banho (na verdade leva-os a fazer xixi na relva… não sei que pensar sobre isto), dá-lhes de comer!

E é assim que estamos, por agora.

Estava a estranhar não haver nenhum feriado esta semana mas, quando menos esperava, terça-feira dizem que quarta é feriado. Mais uma celebração religiosa! A propósito de uma feira que há em Jaisalmer, à qual muitos peregrinos se dirigiram durante o último mês, tal como já tinha contado.

Tenho andado um bocado doente e o calor exagerado não tem ajudado muito à idealização de planos pelo que não tinha nada programado para o feriado, a não ser umas quantas idas à casa de banho e sensação de febre. De manhã, já estava no limiar do despertar quando oiço baterem à porta do meu quarto. Tive alguma dificuldade em perceber que era um knock knock à minha porta, uma vez que isso parece ser desconhecido por estes lados, na verdade. “Se quiseres ir a um templo aqui perto com os meus pais tens que estar pronta em 10 minutos!” Bem… era só mais uma ida ao templo e não parecia ser nada de especial mas lá pulei para o duche. Afinal era uma ida em família a uns templos cerca de uma hora de caminho de carro daqui (adoro como nada é planeado com antecedência por estas bandas e mesmo assim há sempre acontecimentos sociais; se fosse em Portugal, sabia que feriados ia ter desde o primeiro dia de aulas). Num carro e numa carrinha de oito lugares lá fomos como que em forninhos até Balotra. A vila estava cheia de movimento, feiras (quer dizer… lojas) enchiam as ruas de comida e dos mais diversos assuntos de venda. Era a terra onde a “avó” da minha família indiana tinha vivido cerca de três décadas, onde todos os filhos nasceram e onde o marido trabalhava enquanto veterinário, por isso lá foi manifestando o seu espanto com o passar do tempo: “Aqui havia um rio!! Agora já secou tudo!” – entretanto, no lugar do rio passava um camelo. Fomos até ao templo de Mati… tanto tempo de caminho para estarmos cerca de 10 minutos num templo apinhado onde no seu vasto interior, onde o chão parecia lava, só podíamos andar descalços. É um templo Jain. Bonito! Mas quase não o conseguimos ver com tanto pano a tentar dar sombra à fila interminável de devotos. Aqui não é sítio para rezar calma e relaxadamente, não é sítio para meditar nem para conseguirmos ouvir as nossas próprias orações. A grandeza está nas pessoas, na força que produzem juntos e que mostram ao se deslocarem ali em dias tão quentes, de ficarem em pé em filas para verem uma pequena estátua do seu deus e lhes serem concedidos breves segundos de oração. São essencialmente gentes das aldeias e trazem em cestos uma série de coisas para oferecerem aos deuses, desde doces a pulseiras.

Metemo-nos nos carros e lá fomos para outro templo Jain, em Nakoda. Rodeado por montanhas a sua decoração é fresca, lenços cor-de-rosa, azul e amarelo bebé enfeitam os tectos já por si decorados com belas estátuas tipicamente Jains, também elas pintadas com as mais diversas cores vivas e alegres. Devo ter visto o primeiro 3D da História aqui… um mural de três paredes onde em vez de pinturas a explicar a história da religião Jain estão esculturas deliciosas (quem me dera que as fotografias fossem permitidas para vos poder mostrar o porquê desta adjectivação) de cores e aventuras de sonho: desde lutas, a monges nus, a casamentos, a torturas e devorações por animais, a pássaros que funcionam como transporte, a águas idílicas.

Na volta parámos na espécie de hospital de animais (cá para mim é só de vacas) onde o marido da “avó” trabalhava. Todos estavam contentes e sorridentes com o encontro! Eu também, até que uma vaca me tentou comer a mala da câmara fotográfica hihi A despedida foi em tom de cantiga em que gritavam/cantavam dentro do carro “Jai ho! Jai ho! (o resto não sei)”

Durante toda a viagem se comeu (dentro do carro… à porta dos templos…) e se cantou. Até a “avó” de oitenta anos, que nunca percebo se me acha piada ou não, se tem sentido de humor ou se está sempre séria, cantarolava e batia palmas. Lá voltámos a Jodhpur! Claro, que a caminho parámos em mais um pequeno templo.