If you could see the things i’ve seen - chapter II

Há uns tempos vi um cão morto no meio da estrada. No dia seguinte, passei no mesmo sítio e dois corvos já se tinham apoderado do pobre animal. O buraco aberto no corpo do cão servia de mesa para o banquete dos tão negros pássaros.
Noutro dia, seguia de mota quando uma carrinha de caixa aberta se pôs à minha frente. De repente, o cheiro tornou-se insuportável, um cheiro capaz de matar, e na carrinha não havia nada senão morte. O fim, pouco sagrado, de sete grandes vacas amontuadas.

Apenas no caminho para a escola, cerca de 20 minutos de mota, deparo-me com três níveis diferente de pobreza. À beira da estrada, grupos de pessoas mostram toda a sua vida a quem passa, esquecendo o conceito intimidade. Encontro uns com pequenas casas de pouco mais que um metro quadrado construídas pelas suas próprias mãos, em pedra e sem tecto. Mais à frente, uns construíram as suas casas recorrendo a sacos e a plásticos; outro grupo apenas se ficou pelos paus de madeira e outros fazem do seu próprio corpo o limite da sua propriedade.

Uma carrinha que mais parece uma gaiola passa por mim. As grades ou os cordões fazem quadrados entre si, tem cerca de dois metros e meio de altura. Em cada quadrado uma ou duas pessoas se encaixam, lá dentro, mais corpos apertados aproveitam a boleia. Cada vez que me tento lembrar da imagem só consigo visualizando-a em modo de animação japonesa. Algumas imagens são demasiado surreais.

if you could see the things that i’ve seen

Há uma passagem do meu primeiro dia na Índia que não me larga, todos os dias me lembro dessas imagens e com certeza que irão condicionar as ideias que formarei sobre a Índia. Digo no futuro porque ainda não consigo formar nenhuma opinião concreta.

Estava em Nova Delhi, num auto-riksha, ao anoitecer, em direcção à estação de comboios, a cerca de 14 horas de chegar a Jodhpur, quando algo bem mais electrizante se junta ao chinfrim (que se calhar agora já não me faria tanta confusão como na altura) das buzinadelas de carros e motas. Imagine-se um sentido com duas vias na qual se encaixam quatro veículos e se for preciso mais uma vaca. Isto, em hora de ponta numa cidade com pouco mais habitantes do que Portugal inteiro. Uma música muito alta e muito estridente capta-me a atenção de entre todos os outros estímulos, até os macaquinhos bebés se dissiparam. Homens vestidos a cor de laranja choque caminhavam. Templos móveis, carros decorados com cores vivas e com grandes colunas faziam um aparato impossível de ignorar. Agora penso que talvez fosse mesmo esse o objectivo: manter acordados os  caminhantes. Uns dançavam e riam, outros fumavam grandes cigarros. E continuavam a caminhar.

Passado praticamente um mês os caminhantes chegaram a Jodhpur. Caminham rente à estrada mas os olhos estão fixados no horizonte. A pele nota-se que está seca, são magros e as roupas são poucas e estão escuras. Da poeira, de pernoitar ao relento. Os corpos parecem ter deixado de querer, seguem simplesmente, dormentes. O calor, o corpo ressequido, a energia gasta, não permitem mais que a imagem do destino e o continuar do caminho sem questionar.

Peregrinos em direcção a Jaisalmer.

                                              krishna birthday party

Ontem à noite todos os templos se transformaram em luz. Aquilo a que chamaríamos luzes de Natal (estou tão feliz por passar o Natal em Portugal, while we are at it) serviu de enfeite para toda a cidade. Celebra-se o nascimento do pequeno e rechonchudo deus azul. As pessoas rumam aos templos de Krishna como que carreiros de formigas na sua missão por uma migalha. Por dentro, as paredes, as colunas, as pinturas e as estatuetas dão lugar a incontáveis pequenas flores coloridas. Canta-se. A forma de cantar parece-me incomparável aos cânticos que se ouvem numa missa católica. Não importa se estamos dentro do tom, não existe um coro para guiar os crentes. Cantam simplesmente para se fazerem ouvir. Sinto-me a entrar num transe capaz de evocar algo superior. Uma voz ou outra sobressaem, a vontade de se fazerem ouvir é grande. No pátio do templo sinto uma alegria, um preenchimento, que me faz olhar para cima. Está no meu peito mas parece que quer sair em direcção ao céu.

A cidade está repleta de pequenas feiras populares. Não vejo grande diferença aqui entre uma celebração religiosa e uma ida ao parque de diversão.

Na cidade fui a três templos (dois deles, dos templos de Krishna mais antigos em Jodhpur, 250 e 150 anos). Ao chegar a casa percebo que a pequena aldeia se tinha tornado num grande ponto de peregrinação. Carros e carros, barraquinhas de comida e de artigos religiosos encheram a minha pequena rua até ao templo.

P.S.: Vi dois turistas… dei por mim a ter a mesma reacção que os indianos têm quando me vêem passar. Espanto e fascínio, vontade de lhes falar, de me sentir um pouco mais perto de casa. Desde que estive doente, sexta-feira, que tenho morrido de saudades de casa (Lisboa, Assenta, Braga e Viana), de me sentir descontraída ao pequeno almoço (comer cereais enquanto deixo ao critério da TV as primeiras imagens do dia) e dos prédios (bonitos) de Portugal. Nunca pensei vir a dizer isto.

Aquela altura do mês

Aquela altura do mês em que as mulheres indianas são tratadas como se tivessem uma doença perigosíssima, altamente contagiosa.
Hoje a sorte calhou-me a mim. Não posso entrar na cozinha, tenho que beber água por um jarro, tenho que lavar a minha loiça à parte no lavatório do andar de cima e não convém andar por aí a sentar-me em toda a parte da casa.
Ó Portugal, ó Europa! Perdoem-me a minha insatisfação!

                               Jaisalmer - where you can go alone

Graças à chuva de quinta-feira, foi-me dada folga sexta e sábado (mesmo a calhar, preciso de descansar daquela escola). Muito rapidamente a minha cabeça se pôs a pensar… Embora andasse a preparar uma viagem a Udaipur e Mount Abu para quando tivesse dois dias livres, achei que devia aproveitar o mau (bom, aqui por estes lados) tempo em toda a Índia para ir à zona mais quente, ao deserto! Assim, sexta de manhã comecei a preparar a viagem, tentar condensar tudo o que queria fazer num dia para evitar ter que passar a noite em Jaisalmer, uma vez que queria estar de volta a Jodhpur no domingo para celebrar o Rakhi e estar presento no festival de Kytes. O irmão indiano ajudou-me e lá comprámos os bilhetes de comboio: um para as 23.30h do próprio dia e outro de volta para o dia seguinte, sábado, à mesma hora.

Chegados à estação de comboios senti-me logo desconfortável, um imenso tapete de gente deitada no chão em frente da estação. Ao entrar, o dormitório continuava e os que se mantinham acordados não evitaram olhar-me persistentemente. Ia ser assim a minha viagem de um dia? Encontrámos alguns turistas/viajantes (penso que esta palavra retrata melhor quem anda de mochila pela Índia) e o meu “irmão” não hesitou em tentar estabelecer algum contacto entre mim e eles. Mas vá lá… não havia necessidade de fazer o papel de mãe a tentar forjar laços de amizade pelos filhos numa ida ao parque. Anyway, estava nervosíssimo com a minha ida a Jaisalmer e eu agradeço a preocupação. No entanto deixou-me a pensar… se até os indianos têm medo de andar sozinhos se calhar é porque há razões para tal, portanto, o que raio estás a fazer a viajar sozinha na Índia, Carolina? Embora o comboio fosse muito mais apertadinho do que o que me trouxe de Delhi a viagem foi muito mais agradável, também muito mais curta. Ao chegar a Jaisalmer toda a gente tinha pessoas dos hotéis à sua espera… once again, o que raio tens na cabeça para quereres fazer tudo sozinha e quereres faze-lo a pé, Carolina? Como cheguei muito cedo, 6 da manhã, esperei um tempinho na sala de espera onde conheci um grupo de cinco pessoas nos seus cinquentas que estava com o mesmo plano de horário que eu, chegar de manhã e ir embora à noite. Uma coisa boa aqui na Índia é que TODA a gente viaja, independentemente da idade, para todo o lado, independentemente da distância. Às 7h pus-me a caminho. Tudo calmo e, afinal, o Gadisar Lake, é perto da estação de comboios. Senti-me satisfeita, orgulhosa por não ter deixado de fazer a viagem só por causa do medo alheio e que aquele momento tinha sido a minha recompensa pela coragem (o que quero dizer é mais: calma, determinação, meditação – na minha acepção da palavra). É engraçado ter chamado a este processo meditação uma vez que o tema de conversa surgiu por duas vezes no espaço de três dias. Durante muito tempo foi um termo que não conseguia compreender mas desde que decidi aceitar a minha visão sobre o que é a meditação que tem feito todo o sentido. Nas conversas apercebi-me que muitas vezes antes de dormir recorro à meditação e agora, ao escrever este texto, apercebi-me que esta estratégia que tenho usado para fazer coisas, não é coragem, não é desvaneio, é concentrar-me no presente, no acontecimento, não é pensar no que poderá acontecer, na incógnita do futuro, ou nas histórias passadas.

Pelas ruazinhas da cidade, subi até ao forte. O dia ainda estava a começar, os estaminés a comporem-se, as conversas ainda não tinham entrado no modo negócio. Passei num haveli, entrei no forte. Aqui ninguém está a salvo dos comerciantes de comida, de roupas, de artesanato, de viagens e de paleio. Todos me queriam impingir um guia e disseram que era impossível visitar o interior do forte sem um guia, cada metro que andava, uma abordagem, é claro que tinha que discriminar a minha atenção, não dá para falar com todos, à conta disso recebi uns comentários menos agradáveis. Afinal, é fácil visitar o forte sozinha, não é assim tão grande e confuso como parece. Na Índia, está instalado este sistema que faz com que as pessoas pensem que são incapazes de fazer coisas sozinhas, de viajar e visitar locais sozinhas. No fim do dia percebi que não é nada difícil e que até tem as suas vantagens. Conheci um rapaz alemão da minha idade (já tinha estado a viajar durante 9 meses pelo sul asiático; como é que os alemães conseguem estas coisas?), os únicos sozinhos naquela cidade, muito provavelmente. Entretanto, já conhecia todos os vendedores do forte, de vendedores passaram a uma espécie de amigos, não me queriam vender nada e acho que até estavam com pena de mim, a oferecerem-me trabalho nas lojas ahah Ajudaram-me, também, a visitar os sítios que queria a um bom preço. Por mil rupias (preço normal 2000 rupias), o Mr. Happy levou-me a Bada Bagh e até à área desértica de Kanoi (em vez da muito turística Sam Sand Dunes). No entretanto passámos por uma série de vilas isoladas, com casas pequenas circulares com telhados em colmo, pela lendária aldeia de Kuldara e, também, pela vila em ruínas de Khaba com um pequeno forte no topo. Chegando ao Thar Desert, tinha um camelo à minha espera (no meu horizonte não se avistava nenhuma outra alma e as minhas ideias de que algo podia correr para o torto não me largavam). Lá me pus em cima do camelo beeeeeeeehhhh não quero repetir! A subida foi um bocadinho inesperada, ia caindo! Durante a última semana vi dois filmes acerca do deserto, sendo que num deles é mostrado que os camelos não são nada mansos. É claro que isto contribuiu para a minha fuga de calma em cima do camelo. Na volta, tivemos que nos meter pelo meio de uns campos desérticos para fugir à polícia, uma vez que o meu rico guia não tinha licença para tal. O caminho de volta, por campos e campos (esqueci-me de mencionar que do centro de Jaisalmer até ao deserto são 40 e poucos quilómetros de distância) ao pôr-do-sol, a receber o vento da mota foi agradável, tirando o tremor com que fiquei nas mãos e nos pés durante mais meia hora.

Na verdade o Mr. Happy tinha um ar super assustador (magro, alto, manchas na pele, um olho parecia cego e tinha tiques nervosos em que a cabeça tinha espasmos para o lado), nada agradável, mas correu tudo com normalidade, ainda parámos na vila de produtores de vegetais e frutos da cidade, onde a irmã vive e nos deus curd, parámos na vila do resto dos seus familiares e ainda fiquei a jantar em casa dele com a mulher de 20 anos, que me fez um desenho na mão em hena, enquanto o Mr. Happy foi a uma festa. Quando voltou (sei que andou a beber álcool) ainda me levou à estação, sempre a relembrar-me que tinha que o publicitar junto dos meus amigos mas para não mencionar o preço que me fez. Meus caros, não desejo este homem a ninguém.

Última imagem que guardo de Jaisalmer: anoitecer, cimo do forte, vista para toda a cidade, três mosques seguem as suas orações depois de uma série de canções hindus vindas do meio das casas. A lua vai-se tornando mais nítida, falta um dia para a lua cheia. Morcegos pequenos e de um metro sobrevoam-me.

Ao chegar à sala de espera da estação de comboios encontrei o mesmo grupo que tinha estado a fazer-me companhia pela manhã, agradável conversar com eles.

Já no comboio, dormi. A mehndi (hena) descascou entretanto. Cinco e meia da manhã estava em Jodhpur. Mais um dia especial prestes a começar.

                       Vistas dos terraços. Coisas perto de casa.

Há cerca de duas semanas cheguei a Jodhpur. Hoje vai ser a primeira vez que vou deixar a vida confortável de uma família indiana para ir à descoberta da cidade de areia Jaisalmer. Vai ser, também, a primeira vez que passeio desta forma sozinha.

53 steps

53 passos até ao pequeno templo onde as vozes já em casa se ouviam. Mulheres, homens, crianças, vacas e cães, todos virados para o pequeno templo onde lá dentro apenas cabe quem gira a taça com fogo. Logo junto à entrada, homens transpirados repetem os cânticos de transe, em fila todos se vão chegando à frente para fazer o seu ritual de celebração. Vai-se tocando um sino. Olho com espanto, com bem-estar, com alegria de estar presente na última segunda feira da época de monsoon, segundo o calendário hindu.

Entramos para dentro do patiozinho azul do templo, onde por sua vez, por maior dos meus espantos que já se vão tornando menos frequentos, encontro outro templo. Ora, vinte passos à frente, no largo da vacaria, há outro templo e no cimo de uma pequena colina há outro.

Amanhã à noite vamos até à cidade para a celebração do aniversário de outro templo, fundado por alguns membros Brâmane, nomeadamente os da minha família de acolhimento.

Todos os dias é um dia especial.

Aqui na Índia, todo o dia é dia de festa. Religiosa ou não religiosa, inter-religiosa também! Não há distinção. Feriado porque é o Ramadão, feriado porque é o dia dos irmãos, feriado porque vai de acordo com o calendário hindu, feriado porque é o dia da independência (política)…

Ontem, dia 3, foi o Friendship Day! Embora há uma semana e meia este país e estas pessoas me fossem completamente estranhas, inexistentes, ontem senti-me perfeitamente integrada e nada sozinha. Thank you Deepak (aiesec Jodhpur) for roaming the city with me! It meant so much to me! Fomos ao palácio Umaid (residência do rei), passeámos pela parte velha da cidade, entrámos em templos, fomos até ao lago rosa que podem ver nas fotografias em cima. Os três rapazes da fotografia ofereceram-me prendinhas do dia da amizade! Duas pulseiras a dizer FRIEND e um anel às cores a dizer BESTFRIEND! Yey! Fiquei toda contente, temos fotografia juntos mas não vos mostro porque estava demasiado contente (mais mix mega calor não resulta numa grande fotografia; em vez disso, dou-vos uma minha com o burrito que estava à porta de casa do Deepak). Passei também num templo (fotografia interior de um templo com mulheres viradas para o godfather, não sei bem que lhe chamar em português) onde, durante um número de meses, um dos dois livros sagrados do hinduísmo é lido. Com outro amigo e com a irmã dele fomos até um parque (aglomerado de ervas selvagens rafeiras) e acabei por jantar em casa deles! É óptimo entrar dentro das famílias, perceber as suas curiosidades, a formam como lidam uns com os outros, como me exemplificam orguhosamente grandes arrotos, como cozinham sempre deliciosamente. Umas vizinhas mais novinhas ofereceram-me um bocadinho de papel com a Minnie e Mickey abraçados (outra prendinha!!!) e “Excuse-me, go to my house please!” ahah e lá fui eu! Quando cheguei a casa, a irmã indiana também me ofereceu uma pulseira colorida a dizer FRIEND! Ah, é verdade! À tarde ainda passei no centro comercial a dizer-lhe olá, uma vez que me tinha convidado para me juntar a ela e às amigas. Já em casa, fomos a uma festa de anos de uns vizinhos. Divertido. Dança, jogos, comida. Espero que tenham tido um bom dia amigos!

Note-se que para além do friendship day, há também o slap day, o punch day, o enemy’s day, etc…