Tirar a barriga da miséria
(Escrevo ao anoitecer, mal consigo ver as palavras que desenho. Ao fundo, sentado no cimo de uma espécie de torre, um macaco partilha a mesma vista que eu.)
Lá em baixo junto ao lago as vacas vagueiam que nem cães. As luzes vão-se reacendendo com o finalizar da reza que passava no megafone. Outras rezas ainda se ouvem em torno do lago. Depois de uma tarde de ofertas aos deuses e de banhos na água sagrada do lado de Pushkar as pessoas continuam nos degraus junto à água para um último banho abençoado. 7.30h e já é de noite, os dias estão muito mais pequenos. A lua ilumina todo o vale, a música continua.
Os dias têm passado a correr e parece que se passou uma semana quando na verdade apenas três dias se passaram desde que saí de Jodhpur. Só de pensar que pus em hipótese não vir por causa da chuva… Realmente, é verdade que nos encostamos com muita facilidade ao conforto e à segurança do dia-a-dia e isso faz-nos perder todas as oportunidades de viver, de ir e descobrir.
Então, como tudo se passou… no outro dia vi o calendário de feriados escolares e soube que este mês vou trabalhar três semanas seguidas sem interrupção pelo que decidi aproveitar o feriado de quinta-feira e pedir para não trabalhar sexta para que pudesse ir até Jaipur e Pushkar.
Terça à noite pedi autorização e comprei o bilhete de comboio para o dia seguinte. Quarta-feira começou a chover torrencialmente. Quer dizer, passou-se a monção toda no real deserto e logo nos dias que decidi ir passear tinha que estar a chover e a trovejar daquela maneira. Pus em causa a minha ida a Jaipur mas lá desliguei o botão “pensar” e fui esperar o autocarro na companhia da mãe indiana. Bem, só a ida de trinta minutos de minha casa até à estação de comboios foi uma aventura: chuva por todo o lado, dentro do autocarro, toda a gente a observar-me persistentemente, etc. Enfim, não estava a contribuir para a minha segurança de ir em viagem mas o truque é não olhar para trás e continuar a andar. Já com os pés todos sujos num misto de lama com toda a porcaria que possam imaginar que há no chão indiano (xixi, gasolina, escarra, etc.) lá me sentei no comboio no comboio e, num exercício de tentar perceber o que acho e sinto relativamente à Índia, fui acompanhando os fortes relâmpagos capazes de iluminar toda a paisagem até chegar a Jaipur.
Ora esta viagem teve um tom bastante diferente do que o que esperava mas não deixou de ser bonita e de me ensinar bastante. Foi como tirar a barriga da miséria! E claro que teve os seus, já esperados, percalços. Ao fim ao cabo, história não é história se não tiver um vilão. Muito resumidamente, na terça-feira telefonei à pessoa responsável pelo meu contracto e dono da escola onde trabalho se me podia ceder a sexta-feira. Para além de aceitar o meu pedido, o Chefe ainda se ofereceu para me ir buscar à estação de comboios de Jaipur e levar-me até a um hostel que tem um acordo qualquer com a AIESEC e que portanto, não precisaria de pagar a estadia. Chegada a Jaipur fomos até um restaurante chamado Peacock… fiquei maravilhada… que chique! Os meus olhos brilharam ao ver a casa de banho. Ocidental, com bonitos azulejos e num brinquinho! Que gosto estar naquela casa de banho! Subi até ao terraço e uma série de estrangeiros da minha idade ou uns anitos mais velhos acabavam as suas refeições ocidentais e as suas cervejas. Era com eles que íamos ter. A falta que sentia disto! Pessoal da Austrália, Colômbia, México, Polónia, Irão, Congo, Brasil… Um verdadeiro “tirar a barriga da miséria”! Uma das brasileiras chamava-se Carolina, para ajudar à minha explosão de identificação. No entanto, falar português soou demasiado estranho, a conversa com as brasileiras dividiu-se em palavras em português de Portugal, do Brasil, em Espanhol, Inglês e Hindi. Demasiado estranho pensar em português. A vida que este grupo leva em Jaipur é totalmente diferente da que levo em Jodhpur, uma vida cosmopolita, de jantares, convívios internacionais, festas. Com o “chefe” a dizer que já era tarde que tínhamos que ir embora porque no dia seguinte ia para Delhi lá fomos embora. Afinal, já não ia para o tal hostel (segundo ele, estava sobrelotado) mas sim para um hotel de 4 estrelas chamado Ramada. Já não estava a achar piada à conversa mas àquela hora não tinha grande escolha. Então, depois de me assegurar de que o quarto tinha duas camas lá fui. Bem… o luxo continua… uh lá lá! Chego ao quarto e vejo apenas uma cama de casal. AI MEU DEUS! Ainda bem que é proibido o porte de armas senão a Índia tinha ficado com uma pessoa a menos naquela noite. Chateei-me com o imbecil do Chefe (com o qual apenas tinha falado duas vezes, nunca tendo simpatizado com ele), até evoquei a irmã dele mas a resposta não passava de um nervoso “you are so funny”. Fiz com que pedisse um quarto com duas camas. Não havia, então pedi um cobertor e dormi, confortavelmente, no chão. É claro que antes de conseguir dormir o desprezível do Chefe ainda tentou obrigar-me a conversar com ele. Quem me conhece pode tentar imaginar a minha expressão extremamente zangada, indignada e enjoada. Na manhã seguinte tive a recompensa de um deitar tão atribulado: banho de água quente e pequeno-almoço dos reis! No entanto, no meio de tanta escolha com o aspecto mais delicioso de sempre houve algo que me chamou mais à atenção. Plano geral no buffet, panorâmica sobre as mais diversas opções, olhar para numa direcção, zoom in, zoom in, CHOCAPIC, panorâmica rápida para a esquerda, COLD MILK! Feito! Obrigada senhor! Acompanhado com croissants e sumo de laranja foi do melhor que há. Um verdadeiro “tirar a barriga da miséria”!
(Escrevo já em casa, em Jodhpur.)
Fui para o centro da cidade. A humidade era muita e com a chuva acabei por ficar algum tempo numa loja a lamentar-me junto do indiano sobre o facto da minha lente estar cheia de humidade e água no interior. Embora estivesse super transtornada a minha reacção foi de vazio, sem reacção. Para relaxar e enquanto esperava que a chuva acalmasse, o vendedor de roupa lá me ensinou alguns exercícios de yoga e me vestiu um saree. A chuva passou, assim como a névoa dentro da lente da câmara. Saí do refúgio, um pátio com árvores e um templo, e fui logo agarrada por dez indianos que, simpaticamente, me levaram até ao terraço das suas lojas de prata, onde me deparei com uma vista privilegiada sobre o famoso Hawa Mahal. Aconselharam-me a ir ao Amber Fort e lá fui eu. Finalmente verde! Uma muralha delineava as montanhas que rodeavam o forte e a pequena aldeia. Andei por lá a explorar com um indiano que decidiu que queria treinar inglês comigo e que me levou a uma casa de elefantes, podia ter andado de elefante mas depois da experiência com os camelos decidi ficar-me pelas festinhas. Voltei para a cidade, com passagem por um palácio meio submerso, onde andei por umas ruazinhas com um senhor condutor de Auto a visitar lojas de roupa e de velharias. Terminei o dia no templo mas não serviu para alinhar os chakras… mais parecia uma rave com tanta gente e barulho. Fui ter com um dos rapazes que tinha conhecido no jantar do dia anterior e recebi uma chamada do Chefe a tentar encontrar-se comigo e a dizer mal do tal rapaz (só porque é negro). Não podia ter tomado melhor decisão do que ir ter com o Devon e ignorar os avisos do desconfortável Chefe. A partir daqui o Chefe começou a ter reacções altamente preocupantes, a tentar controlar onde é que eu estava, achando que lhe devia algum tipo de informação e a falar, de forma super revoltada do Devon. Para além disso onde quer que dissesse que estava, tentava encontrar-se comigo. Com o resto do grupo dos estrangeiros da noite anterior fomos a uma discoteca/bar. É claro que o Chefe apareceu e não parou de me matar e ao Devon com o olhar e é claro que fugi dele e que dormi em casa dos novos amigos. Mais uma casa impecável *.* Nestes dias dormi bem como não dormia há muito! Tomámos o pequeno-almoço no terraço. Frutos, torradas, chai, omelete, biscoitos… De seguida fomos buscar a minha mala que o Chefe tinha deixado no hotel e fiquei a visitar os mercados com o meu novo companheiro de viagem que veio de Jodhpur para passear comigo até Pushkar e voltarmos juntos para a cidade de origem. Já tinha conhecido o lado verde de Jaipur (fez-me lembrar o que o meu imaginário diz como a China é), agora, já com sol, era tempo de me entranhar no mundo de cor da cidade cor-de-rosa. Depois de almoçar onde os escritores de Jaipur se encontram para trocar ideias e ter longas conversas, mergulhámos nos mercados. Elefantes pintados com cores vivas e cavalos com as “unhas” pintadas de cor-de-rosa choque encheram-me ainda mais o olhar sobre um mundo surreal. Nem nos meus mais rebuscados sonhos poderia encontrar tanta cor. De noite, jantámos num bar com a maior mistura de músicas possíveis e seguimos para mais uma discoteca onde dançámos até às duas da manhã (o meu amigo indiano pediu para passarem o “Nossa! Nossa! Assim você me mata! ai se eu te pego…” que cantámos meio às gargalhadas). Os amigos dos dias anteriores também apareceram e dançou-se música de discoteca como se de música africana se tratasse. O pessoal do Congo a representar! Curiosidades: em vez da estratégia do ambiente quente usado nas discotecas europeias, aqui o ar condicionado é levado ao extremo; eu sempre vestida como se fosse para a praia contrastei com as turcas de mini-saia; o número de pessoas nas discotecas contam-se pelos dedos das mãos; o chão está sempre imaculado. Dormi no tal hostel prometido desde a primeira noite (ainda bem que pude poupar dinheiro nas duas primeiras noites) e acordei pronta para mais um pequeno almoço de cereais com leite frio, desta vez, ao som de uma conversa sobre viagens com outros turistas/viajantes ingleses.
Partimos para Pushkar com uns bilhetes baratíssimos (60 cêntimos) que nos permitiram ir numa carruagem apinhada. A entrada foi uma verdadeira luta, toda a gente quer conseguir um lugar. O calor faz-me adormecer mas não tenho sítio onde pousar a cabeça, tento a mala que está em pé entre as minhas pernas. As migalhas de comida estão constantemente a cair do acento de cima e não vejo mais nada senão pés. Nitidamente que o meu amigo indiano está incomodado. Com outros dois novos amigos (da Suíça e do Nepal) procurámos um sítio barato para dormir, o destino deu-nos quartos sobre o lago pelo simples preço de 4 euros cada. Fui buscar energias ao único templo de Brahma do mundo e deslizei pelo rio de cor, cheio de tentações ao bolso de qualquer um, do mercado de Pushkar. A volta foi feita junto do lago… que magia! Que sonho! Aqui acabam-se as regras das vestes, mulheres despreocupam-se com o mostrar do corpo ao banharem-se na água do lago. A crença é tão grande! É claro que aqui o negócio não é esquecido, tentam pôr-nos flores na mão, ensinando-nos como as atirar ao lago com a surpresa final de pedido de dinheiro (esta parte não me aconteceu, consigo abstrair-me o suficiente para eles perceberem que não estão a ser ouvidos). O final do dia parece prolongar-se, a magia é grande o suficiente para lhe ser concedida uns meros trinta minutos de pôr-do-sol. Várias pessoas tocam instrumentos junto ao rio, as tablas destacam-se. Velas e pequenos fogos são acendidos, está na altura de rezar. Volto para o hotel e fico a olhar tudo cá de cima.
No dia seguinte sinto que tenho que aproveitar o pouco tempo que me falta, pela hora de almoço tenho que estar de volta a Ajmer para apanhar o autocarro para Jodhpur. O pouco tempo em Pushkar não me satisfez, não deu para tudo o que a minha vontade queria. Consolo-me dizendo que posso voltar noutro fim-de-semana mas conheço-me o suficiente para perceber que é pouco provável que aconteça.
No terraço do hotel, preparada para me ir embora, desata um macaco a saltar apressadamente por todos os terraços na minha direcção, da minha carteira e da minha câmara fotográfica. Corri em direcção à porta do meu quarto que já estava fechada. Só escapei àquele macaco desvairado de dentes à mostra porque bem decidiu continuar em frente depois de me aterrorizar. Saí para uma última volta e comprei três saias lindas (não indianas, nenhuma indiana veste aquilo) por 7.70 euros e uns terços para trazer comigo a crença, a esperança, que se vive em Pushkar.
Já estou em Jodhpur, foi bonito voltar mas sinto saudades destes últimos dias. A “mãe” indiana disse que pareceu que tive fora um mês e que já tinha saudades, fiquei feliz por fazer parte. Amanhã estou de volta ao trabalho. Como será de agora em diante com o Chefe? Já está na hora de receber o salário, também… Acabou-se a pápa doce mas soube bem tirar a barriga da miséria!






























