Em busca de sentido
A Índia é o belo e é o absurdo. É o sonho e a mais pura das realidades.
Que força foi esta que me fez vir para a Índia? Será que é uma vontade da humanidade no geral? Será que toda a gente se projecta a viver aqui? Esclareçam-me, por favor.
Se calhar o acertado é não procurar estas respostas, tenho um pequeno pressentimento de que serão as mesmas para o sentido da vida e isso parece-me uma tarefa demasiado difícil. Mas mais difícil é impedir-me de um dos meus passatempos predilectos: encontrar respostas para o comportamento humano.
Não sei o que me fez vir para aqui mas sei o que é que encontrei. No fim, apenas isso me vai servir de alguma coisa. Passado ano e meio de ter deixado a Turquia percebo que, no meio de tanta coisa que para lá aconteceu, aprendi uma em especial: a confiar. A confiar em mim [não no sentido de me sentir confiante mas na minha capacidade de fazer e no meu sexto sentido, sinto que sou uma pessoa de confiança para mim mesma (espero que isto tenha feito sentido para alguém)]; a confiar nos outros (embora saiba que a mente é traiçoeira); e no mundo (se fores feito de boas intenções e confiares, o mundo retribui).
Pondo as coisas nestes parâmetros, a Índia tem-me revelado muito sobre a família. Não é o casamento ou a liberdade condicionada, não são as diferenças impostas por um nome (casta), não é a ida ao templo ou a crença desmedida. Não é isto que mais me tem ensinado ou chamado mais (quero dizer excessivamente) a atenção. Aqui tudo é para e pela família. Independentemente de tudo o que mencionei, a família é o centro. (Devo dizer que quase de certeza que não perceberia isto se tivesse vindo numa breve passagem turística). Foi aqui que tomei consciência, de forma incrível, do tamanho amor que tenho pela minha família e não duvidar, nem por um segundo, que é maior do que o amor e obsessão que qualquer indiano possa ter pela sua.
Tanta converseta filosófica mas a resposta para ter vindo até é fácil: estava aborrecida! Claramente que Portugal me estava a aborrecer. Mas então porque não arranjar um trabalho de uma vez por todas, por exemplo? Medo. Medo de não saber fazer (ainda bem que vim então trabalhar para o outro lado do mundo, numa área que em nada me é familiar, numa língua totalmente desconhecida). Medo de não voltar a sair de Portugal. Alguém que me ajude a desvendar o segundo medo. Geralmente o pessoal viaja… Uma semana, quinze dias… Oiço imensas vezes “já estou cansada de Portugal, queria ir viajar! Ir uns diazinhos a Paris ou à Holanda”. Hm :x Soa-me a vazio. Mas porquê este pavor a permanecer no meu país ao qual reconheço tanto valor? Eu e o meu amigo Jerónimo costumamos brincar com a expressão, muito brejeira, “a vida é um jogo”. Mas realmente é! Cheia de peripécias, de momentos de tensão e conquistas, de aliados e de outros que só existem para nos dificultar ganhar pontos. Vivemos da curiosidade da carta seguinte e do esforço que pomos a resolver cada tarefa. Queremos um jogo que mexa com as emoções, que nos faça sentir e, de preferência, que nos dê alguma adrenalina mas quando o sabemos de cor damos voltas e voltas ao tabuleiro e a vitória já não sabe a nda. É aí que se vai ao Google procurar novos jogos. Acho que saltei alguns níveis de dificuldade mas se a intuição dizia Índia para quê esperar? Na verdade só me imaginava aqui nos meus 40 anos… Uma pessoa experiente, capaz de retirar muito de um país tão complexo mas aqui estou eu aos 22 a adorar.
Eis que recebemos a visita de um tio. Antigo condutor de comboios, entre eles um chamado Palace on Hills, e vencedor de competições de ciclismo, que agora se divide entre uma perna sem força que o obriga a um andarilho (mesmo assim e com falta de visão e audição conduz mota, que perigo!) e a uma visita diária ao templo, onde escreve durante seis horas o nome de Deus.
Sem demoras pôs-me pó-talco na mão e leu-me a sina. Pedi para não me dizer a leitura mas “vais ser rica! E vai ter uma longa vida!”. Perguntou se acreditava em Deus, não sei no que ficou a magicar. Disse que tinha feito boas acções no passado e que era por isso que agora estava na Índia. (Mesmo a tempo de responder às minhas dúvidas!) Que o nascimento na minha próxima vida vai ser na Índia.
É o absurdo e o belo a acontecer. O inesperado de uma tarde esperada mais do que normal. Tal como o acidente que ia tendo na vinda para casa. No meio do trânsito, num cruzamento, a mota onde ia estava prestes a ser atropelada por um camelo, vi-o perto demais. Sinto-me pasmada por alguns segundos, nem em sonho! No entanto, no segundo seguinte já tudo se disseminou na percepção do real e se misturou com o normal.