MCLEOD GANJ/BUGSO/DHARAMKOT, Himachal Pradesh
MANALI, Himachal Pradesh
Wondering about time in Bilara
Fartei-me de escrever nos dias em que estive em Bilara (de quinta a terça-feira) mas acho que merece um resumo. Desde Jaipur que soube que tinha que passar uma semana em Bilara (uma vila a uma hora e meia de caminho de Jodhpur) e desde aí que não achei piada à ideia. Primeiro porque não gostei da forma de como me foi “sugerido” e depois porque era para ficar em casa da família do Chefe (com quem não faço questão de contactar), numa vila onde “não há nada”, todos me avisaram. Já estava mentalizada que ia mas com os quatro dias de adiamento a minha paciência já estava a escapar. A acrescentar, fui preparada para três dias, quando me informam que tenho que ficar até ao fim da semana seguinte (negociei de modo a estar em Jodhpur para o feriado de quinta-feira, dia 25) e levada para o meu quarto: um cubículo anexo à escola com uma cama e uma casa de banho. Nem pus em hipótese! Fiz-me de esquisitinha e perguntei se não podia ficar com a família. Problema resolvido. A poucos metros de distância já tinha entrado no íntimo duvidoso do Chefe. A casa de ares coloniais, onde agora apenas vive uma avó (com um furo na orelha de 2 cm onde, para além do alargador de ouro, tem atado ao buraco um cordão preto com ligação ao cordão que dá a volta ao pescoço, para prevenir que o brinco, já pequeno demais para a pele aberta, caia) com uma das suas netas (que anda em jejum quatro dias por semana) e uns quantos servants, parecia atrasar o tempo. Duplica-nos cada minuto para que possamos contemplar melhor o verde, o descanso e os finais de tarde que faltam em Jodhpur. Passei os fins do dia sentada no banco de baloiço a ver um dos criados de 17 anos a lavar a loiça com a terra do quintal, a olhar para o reflexo dourado nas plantações de algodão e a tentar ver os morcegos nos ramos das árvores. Admito que de início comecei a desesperar com o facto de não ter nada para fazer (ou com quem falar) mas as manhãs na escola revelaram-se merecedoras dos meus dias de pausa… alunos inteligentes e bem-comportados, o tempo não custa a passar ali.
De tarde sempre fui dando uns passeios, a templos, a uma loja de pintura onde o dono me oferecia sempre gelados, no fim de semana estive em casa da directora onde pude conversar com o seu filho e com uma rapariguinha de 12 anos com deixas como “the governemnt is sleeping” a propósito da pobreza na Índia. Ao passar na rua notei que algo se passava e a minha curiosidade levou-me a mim, ao filho da directora e à menina de 12 anos (que me ofereceu uma pulseira e pediu que nunca a esquecesse, manifestando a sua vontade de falar comigo para sempre) à casa daquelas pessoas. Uma banda que descansava à porta da casa, prontamente se levantou e nos ladeou com uma música de boas-vindas. Como o filho da directora disse “foi como se fossemos rei e rainha” (fico feliz que um indiano tenha experienciado o que tantos estrangeiros têm sem sazão). O chão da casa não se via com tantas mulheres e crianças sentadas. Pegaram em mim e puseram-me num círculo onde cantavam em tom ritualístico e desafiaram a minha voz roca e a minha falta de ar (mais uma vez, ando doente) a acompanhá-las. O filho da directora, que até há um ano levava a boa vida de Jaipur mas que agora não sente mais que aborrecimento em Bilara, disse que tinha sido o melhor dia dele em Bilara. A minha estadia já valeu de alguma coisa!
Fiquei sem papel higiénico. Não imaginam a minha irritação! Não é por não haver papel higiénico, é pelos indianos prometerem e dizerem que tudo existe e no fim o guardanapo que me dão é uma toalha de mãos e por ninguém me ser capaz de explicar como é que me posso limpar com água como eles! Lá descobriram na vila inteira um pacote a metades de papéis de café não absorventes.
No último dia as professoras da escolinha ofereceram-me uma camisa para que nunca me esquecesse delas e dissera-me que iam sentir a minha falta. Uma delas ofereceu-me uma pulseirinha. Embora me custe receber toda esta adoração pelo simples facto de não ter feito absolutamente nada agradeço e fico sensibilizada. Que alegria que é ter sido importante de alguma forma para tanta gente (ou ter sido um objecto enviado para Bilara para entreter aquelas pessoas aborrecidas)!
Houve ainda um momento de suspense nesta minha ida. Onde há fumo há fogo, minha gente! Se tiverem curiosidade é só mandar mensagem.
Os Fins-de-Semana em Jodhpur
O dia soube-me bem. O calor não estava nada por aí além por isso lá me enfiei no autocarro que passa à frente de casa até ao centro da cidade. É claro que demorou imenso tempo e que encheu tanto que à saída demorei quase cinco minutos para percorrer o metro que separava o meu lugar abafado da porta. Encontrei-me com o meu companheiro de visitas à cidade e lá andámos a vaguear de mota enquanto pensávamos num sítio para irmos. Como estava demorado e o calor afinal era algum, parámos durante um bocado para viciar em batidos de ananás com gelado. O que me apetecia era uma lugar relaxado, numa sombrinha ao ar livre com uns bancos/pufs confortáveis… o que tive foi um dos típicos cafés onde fritam tudo à nossa frente, escuros e muito pouco confortáveis mas os batidos eram uma delícia e mais baratos que o habitual (25 rupias cada). Lá decidimos metermo-nos pelas ruas de um dos mercados mais famosos de Jodhpur chamado Tripolia Bazar. É famoso pelos têxteis mas também podemos encontrar ruazinhas de especiarias. Ah, que cheirinho! Traz-me lembranças de Istambul! Fui com a irmã dele, a Cheetal, a uma lojinha, super escondida (tínhamos que entrar por uma porta pequena, subir umas escadas e afastar umas cortinas de plástico grosso até lá chegar), de bugigangas (bugigangas é como quem diz, visto que aqui é praticamente tudo ouro e prata), só comprei dois totós pretos para apanhar o cabelo. Ao fim da tarde fomos os três até um dos pontos mais altos da cidade, um jardim onde, para além da relva e dos arbustos, se ergue a “Torre Eifel de Jodhpur” ahah Não… é só a antena de sinal televisivo. Depois do pôr-do-sol, lá fomos os três montados na mota até minha casa. No caminho, começo a ver um grande grupo de pássaros a voar na direcção oposta… que bonito! Os pássaros pretos a voar no céu azul escuro, ainda não negro. Eu e a Cheetal vamos a cantarolar, ela, as suas músicas indianas e eu, as minhas musiquinhas em inglês. Sabe bem com o vento da mota. Bem… mas os pássaros nunca mais acabam – penso eu. Até que começo a notar algo de diferente naquele voar… É um voar lento, algo sinuoso. Um dos pássaros passa mais perto de mim: são morcegos! Parecia mesmo que estavam a invadir Jodhpur, tantos e a bater as asas daquela forma suspeita, em direcção à cidade…
Em casa tive a melhor surpresa do dia. Finalmente consegui conversar com a minha mãe sem ser por escrito!!! Não é fácil conciliar os horários da vida portuguesa com os da vida indiana. Que regalo! Falámos, falámos, rimos. Fiquei feliz!
Depois da conversa tinha uma série de snacks indianos à minha espera, que a família indiana tinha trazido da cidade. Mnhami, mnhami, mais uma vez, cheia que nem um javali.
Domingo. Fomos até à casa de cidade. Toda a família estava lá, fez anos que o “avô” iniciou outra vida. Se há coisa que me dá prazer são reuniões familiares. Adoro o à vontade de todos, a oportunidade de estar num ambiente familiar e se poder pôr a conversa em dia, a comida, o fortalecer de laços já tão fortes. Deu para ver fotografias de quando todos eram mais jovens e para ouvir e tocar alguns instrumentos tradicionais indianos (tablat, harmonic e outros que não sei o nome).
No final destes dois dias de descanso senti-me preenchida. Ao fim de nem dois meses conheço pessoas que adoro, com quem tenho a oportunidade de viver momentos que dão todo o sentido a esta estadia.
Finalmente, verde. Amber Fort. Não entrei. Em vez disso, aproveitei a companhia de um indiano aleatório e andei forte acima, aldeia abaixo, a rechear os olhos de verde antes de voltar para o deserto. A companhia inesperada levou-me até uma casa de Dumbos… pobrezinhos, acorrentados; mas os homens não ficam atrás, não têm correntes mas passam o dia como o companheiro elefante, ali, naquele sítio.
Vistas dos terraços. Coisas perto de casa.
Há cerca de duas semanas cheguei a Jodhpur. Hoje vai ser a primeira vez que vou deixar a vida confortável de uma família indiana para ir à descoberta da cidade de areia Jaisalmer. Vai ser, também, a primeira vez que passeio desta forma sozinha.
blue city, 3rd city of mine