Finalmente, verde. Amber Fort. Não entrei. Em vez disso, aproveitei a companhia de um indiano aleatório e andei forte acima, aldeia abaixo, a rechear os olhos de verde antes de voltar para o deserto. A companhia inesperada levou-me até uma casa de Dumbos… pobrezinhos, acorrentados; mas os homens não ficam atrás, não têm correntes mas passam o dia como o companheiro elefante, ali, naquele sítio.
krishna birthday party
Ontem à noite todos os templos se transformaram em luz. Aquilo a que chamaríamos luzes de Natal (estou tão feliz por passar o Natal em Portugal, while we are at it) serviu de enfeite para toda a cidade. Celebra-se o nascimento do pequeno e rechonchudo deus azul. As pessoas rumam aos templos de Krishna como que carreiros de formigas na sua missão por uma migalha. Por dentro, as paredes, as colunas, as pinturas e as estatuetas dão lugar a incontáveis pequenas flores coloridas. Canta-se. A forma de cantar parece-me incomparável aos cânticos que se ouvem numa missa católica. Não importa se estamos dentro do tom, não existe um coro para guiar os crentes. Cantam simplesmente para se fazerem ouvir. Sinto-me a entrar num transe capaz de evocar algo superior. Uma voz ou outra sobressaem, a vontade de se fazerem ouvir é grande. No pátio do templo sinto uma alegria, um preenchimento, que me faz olhar para cima. Está no meu peito mas parece que quer sair em direcção ao céu.
A cidade está repleta de pequenas feiras populares. Não vejo grande diferença aqui entre uma celebração religiosa e uma ida ao parque de diversão.
Na cidade fui a três templos (dois deles, dos templos de Krishna mais antigos em Jodhpur, 250 e 150 anos). Ao chegar a casa percebo que a pequena aldeia se tinha tornado num grande ponto de peregrinação. Carros e carros, barraquinhas de comida e de artigos religiosos encheram a minha pequena rua até ao templo.
P.S.: Vi dois turistas… dei por mim a ter a mesma reacção que os indianos têm quando me vêem passar. Espanto e fascínio, vontade de lhes falar, de me sentir um pouco mais perto de casa. Desde que estive doente, sexta-feira, que tenho morrido de saudades de casa (Lisboa, Assenta, Braga e Viana), de me sentir descontraída ao pequeno almoço (comer cereais enquanto deixo ao critério da TV as primeiras imagens do dia) e dos prédios (bonitos) de Portugal. Nunca pensei vir a dizer isto.
53 passos até ao pequeno templo onde as vozes já em casa se ouviam. Mulheres, homens, crianças, vacas e cães, todos virados para o pequeno templo onde lá dentro apenas cabe quem gira a taça com fogo. Logo junto à entrada, homens transpirados repetem os cânticos de transe, em fila todos se vão chegando à frente para fazer o seu ritual de celebração. Vai-se tocando um sino. Olho com espanto, com bem-estar, com alegria de estar presente na última segunda feira da época de monsoon, segundo o calendário hindu.
Entramos para dentro do patiozinho azul do templo, onde por sua vez, por maior dos meus espantos que já se vão tornando menos frequentos, encontro outro templo. Ora, vinte passos à frente, no largo da vacaria, há outro templo e no cimo de uma pequena colina há outro.
Amanhã à noite vamos até à cidade para a celebração do aniversário de outro templo, fundado por alguns membros Brâmane, nomeadamente os da minha família de acolhimento.
Todos os dias é um dia especial.