Estava a estranhar não haver nenhum feriado esta semana mas, quando menos esperava, terça-feira dizem que quarta é feriado. Mais uma celebração religiosa! A propósito de uma feira que há em Jaisalmer, à qual muitos peregrinos se dirigiram durante o último mês, tal como já tinha contado.

Tenho andado um bocado doente e o calor exagerado não tem ajudado muito à idealização de planos pelo que não tinha nada programado para o feriado, a não ser umas quantas idas à casa de banho e sensação de febre. De manhã, já estava no limiar do despertar quando oiço baterem à porta do meu quarto. Tive alguma dificuldade em perceber que era um knock knock à minha porta, uma vez que isso parece ser desconhecido por estes lados, na verdade. “Se quiseres ir a um templo aqui perto com os meus pais tens que estar pronta em 10 minutos!” Bem… era só mais uma ida ao templo e não parecia ser nada de especial mas lá pulei para o duche. Afinal era uma ida em família a uns templos cerca de uma hora de caminho de carro daqui (adoro como nada é planeado com antecedência por estas bandas e mesmo assim há sempre acontecimentos sociais; se fosse em Portugal, sabia que feriados ia ter desde o primeiro dia de aulas). Num carro e numa carrinha de oito lugares lá fomos como que em forninhos até Balotra. A vila estava cheia de movimento, feiras (quer dizer… lojas) enchiam as ruas de comida e dos mais diversos assuntos de venda. Era a terra onde a “avó” da minha família indiana tinha vivido cerca de três décadas, onde todos os filhos nasceram e onde o marido trabalhava enquanto veterinário, por isso lá foi manifestando o seu espanto com o passar do tempo: “Aqui havia um rio!! Agora já secou tudo!” – entretanto, no lugar do rio passava um camelo. Fomos até ao templo de Mati… tanto tempo de caminho para estarmos cerca de 10 minutos num templo apinhado onde no seu vasto interior, onde o chão parecia lava, só podíamos andar descalços. É um templo Jain. Bonito! Mas quase não o conseguimos ver com tanto pano a tentar dar sombra à fila interminável de devotos. Aqui não é sítio para rezar calma e relaxadamente, não é sítio para meditar nem para conseguirmos ouvir as nossas próprias orações. A grandeza está nas pessoas, na força que produzem juntos e que mostram ao se deslocarem ali em dias tão quentes, de ficarem em pé em filas para verem uma pequena estátua do seu deus e lhes serem concedidos breves segundos de oração. São essencialmente gentes das aldeias e trazem em cestos uma série de coisas para oferecerem aos deuses, desde doces a pulseiras.

Metemo-nos nos carros e lá fomos para outro templo Jain, em Nakoda. Rodeado por montanhas a sua decoração é fresca, lenços cor-de-rosa, azul e amarelo bebé enfeitam os tectos já por si decorados com belas estátuas tipicamente Jains, também elas pintadas com as mais diversas cores vivas e alegres. Devo ter visto o primeiro 3D da História aqui… um mural de três paredes onde em vez de pinturas a explicar a história da religião Jain estão esculturas deliciosas (quem me dera que as fotografias fossem permitidas para vos poder mostrar o porquê desta adjectivação) de cores e aventuras de sonho: desde lutas, a monges nus, a casamentos, a torturas e devorações por animais, a pássaros que funcionam como transporte, a águas idílicas.

Na volta parámos na espécie de hospital de animais (cá para mim é só de vacas) onde o marido da “avó” trabalhava. Todos estavam contentes e sorridentes com o encontro! Eu também, até que uma vaca me tentou comer a mala da câmara fotográfica hihi A despedida foi em tom de cantiga em que gritavam/cantavam dentro do carro “Jai ho! Jai ho! (o resto não sei)”

Durante toda a viagem se comeu (dentro do carro… à porta dos templos…) e se cantou. Até a “avó” de oitenta anos, que nunca percebo se me acha piada ou não, se tem sentido de humor ou se está sempre séria, cantarolava e batia palmas. Lá voltámos a Jodhpur! Claro, que a caminho parámos em mais um pequeno templo.

if you could see the things that i’ve seen

Há uma passagem do meu primeiro dia na Índia que não me larga, todos os dias me lembro dessas imagens e com certeza que irão condicionar as ideias que formarei sobre a Índia. Digo no futuro porque ainda não consigo formar nenhuma opinião concreta.

Estava em Nova Delhi, num auto-riksha, ao anoitecer, em direcção à estação de comboios, a cerca de 14 horas de chegar a Jodhpur, quando algo bem mais electrizante se junta ao chinfrim (que se calhar agora já não me faria tanta confusão como na altura) das buzinadelas de carros e motas. Imagine-se um sentido com duas vias na qual se encaixam quatro veículos e se for preciso mais uma vaca. Isto, em hora de ponta numa cidade com pouco mais habitantes do que Portugal inteiro. Uma música muito alta e muito estridente capta-me a atenção de entre todos os outros estímulos, até os macaquinhos bebés se dissiparam. Homens vestidos a cor de laranja choque caminhavam. Templos móveis, carros decorados com cores vivas e com grandes colunas faziam um aparato impossível de ignorar. Agora penso que talvez fosse mesmo esse o objectivo: manter acordados os  caminhantes. Uns dançavam e riam, outros fumavam grandes cigarros. E continuavam a caminhar.

Passado praticamente um mês os caminhantes chegaram a Jodhpur. Caminham rente à estrada mas os olhos estão fixados no horizonte. A pele nota-se que está seca, são magros e as roupas são poucas e estão escuras. Da poeira, de pernoitar ao relento. Os corpos parecem ter deixado de querer, seguem simplesmente, dormentes. O calor, o corpo ressequido, a energia gasta, não permitem mais que a imagem do destino e o continuar do caminho sem questionar.

Peregrinos em direcção a Jaisalmer.

custa perceber

Thank you world and my family for this oportunity, this life and living experience. Ainda não consigo perceber muito bem como vim parar à Índia, a uma cidade do Rajastão, como é que de um momento para o outro não há cozidos na minha dieta e como é que quatro desconhecidos se tornaram a minha família (não sei se estou a achar graça ao controle excessivo).

Três meses e meio noutro mundo. Um mundo onde homens e crianças andam de mãos dadas na rua, onde a chuva é uma benção e sinónimo de ir para a rua. Mesmo depois das várias exclamações de preocupação e algumas lágrimas tão desmotivadoras, estou na Índia.

Por vezes custa mesmo perceber o porquê de certos actos e vontades, ainda não percebi o porquê, agora que cá cheguei ainda menos percebo. Uma família que de um momento para o outro me tira toda a minha alegria de pessoa independente com a simples pergunta “porque chegaste tão tarde?”. Viver numa casa tão longe de tudo que me dificulta o contacto com os maiores pontos de interesse da cidade. Um calor que me não me permite pensar, sequer. Valores e roupas que me fazem sentir uma estranha. Dificuldade em manter amizades pelo obstáculo da língua. Ser observada a cada passo que dou na rua. Não poder beber água nem lavar os dentes à vontade sem me preocupar com a qualidade da água e doenças. Não poder matar os insectos que invadem o meu espaço. Não poder sentar-me numa sanita. Esquecer o que é ter um cabelo limpo e macio. Desejar ter óculos de natação cada vez que ando de mota (a poeira é demasiada). A lixeira ser a rua (poluição, poluição). Deparar-me com um conceito de pobreza que não fazia parte do meu imaginário até à data. Etc. Etc. 

Por vezes custa mesmo perceber o porquê de certos actos e vontades, ainda não percebi o porquê, agora que cá cheguei ainda menos percebo. Uma família que me acolheu desde o primeiro dia, que se preocupa com quem me dou, com quem estou, com o que faço. Uma família que me dá de comer a toda a hora, que me quer ensinar coisas, que apesar das diferenças linguísticas tenta conversar comigo. Uma família que me inclui nas crenças religiosas. Pessoas que acabei de conhecer mas que se dão ao trabalho de fazer longos caminhos para me virem buscar a casa e me levarem a fazer coisas. Famílias que vou conhecendo pontualmente que querem uma fotografia de família, me aprontam a preceito e me fazem rituais de sorte: pinta na testa, arroz na pinta, doce na boca, nota na mão. Crianças que se fascinam com o meu ar, adolescentes que acreditam que lhes posso dar algo de muito útil. Construções fascinantes. Cor. Reconhecer a beleza da chuva e desejá-la. Sabores nunca antes provados. Um país crente.

cultural differences - chapter I

Para verem o quão corajosa sou… na noite passada ia-me deitar quando olho para os lençois e os meus olhos fazem um close up muito rápido e BARATA! Tinha uma barata bebé (acho) nos meus adorados lençóis trazidos de Lisboa. O meu coração não palpitou nem por um segundo, sacudi a barata para o chão e matei-a. Castigo por ter matado uma centopeia no dia anterior. Hoje, um dos meus piores pesadelos realizou-se: enquanto fazia xixi na sanita-buraco uma centopeia bastante gordinha apareceu de dentro da sanita. Aiaiaiaiai. Por este andar no final do estágio tenho um elefante no quarto.

Para verem o quão boa menina sou… depois de uma video-conferência com o meu pai e irmã e das famílias terem sido apresentadas, a família indiana começa a fazer-me perguntas, até que tenho que dizer que os meus pais, assim como tantos outros em Portugal, estão divorciados lol onde me fui meter… A “mãe” fez-me prometer que eu nunca me iria separar ahah única forma de cumprir é: não casar! No meio da conversa expliquei que nos davamos todos bem e que nos amávamos muito, o que a deixou bastante contente. No final disse que éramos todos iguais quando referi que todos se preocupavam bastante e que queriam saber onde andamos, a que horas chegamos a casa, etc. Terminou a dizer que o meu interior é bom, que tenho uma boa natureza. A acrescentar ao “good eyes see everything good”, a propósito de gostar de toda a comida que me dão ahah Acho que estão preocupados porque dizem que sou muito magra e que como pouco ahah É tudo uma questão de perspectiva.

Já agora, ficam a saber que quando a mulher Hindu está menstruada não pode cozinhar nem entrar na cozinha, assim como também não pode rezar nem ir ao templo.

Mulher indiana cozinha todo o dia: chá, pequeno almoço, almoço, chá, lanche, snack, jantar. Portugueses… duas horas por dia na cozinha não é nada! Mulheres valentes! Trabalham, cuidam dos filhos, cozinham, limpam e ainda se divertem!

P.S.: Hoje descobri, depois de me terem comprado UM rolo de papel higiénico que mais parece papel de escrever e sabão para tomar banho, que andava a lavar a cara, mãos e pés com o sabão de lavar a roupa.