Track:
Son
Artist:
Warpaint
Album:
Warpaint

The song that made the journey in India calmer and real. Something I took with me from my usual life in Portugal, that helped me in my long bus and train trips on that immense country, and in my hard to fall asleep burning nights.

being alone is being with the whole

Nunca me tinha passado pela cabeça a possibilidade de estar na Índia aos 22 anos. Muito menos me tinha cruzado no pensamento a ideia de vir a viver alguma vez na Índia; se viesse seria, com certeza, durante um mês, só para passar umas feriazinhas. É claro que vir sozinha seria impensável… num país, tão grande, diferente e pouco cómodo para as mulheres… Mas, bem… mesmo que, por maior dos acasos, a vida me trouxesse para a Índia nunca me aventuraria a viajar por este gigante país fora sozinha. A verdade é que conhecemos muito pouco de nós mesmos e daquilo que somos capazes.

Dia 4 de Outubro de 2014 (bloco de notas): O que farias se estivesses sozinha, numa estação de autocarros, com ratos a passar de um lado para o outro por baixo da banca onde acabaste de pedir um pão com manteiga, numa cidade completamente aleatória da Índia que não fazes ideia de como localizar no mapa, de noite, à espera há cinco horas de um autocarro que deveria ser proibido andar durante mais de 30 minutos, com assentos mesmo muito pequenos e rijos, que te vai levar durante 17 horas ao teu tão desejado destino, onde não tens nada nem ninguém à tua espera?

Dez dias e mais de 71 horas de caminho. Porquê sair da zona de conforto, quando até se está a recuperar de uma sinusite um tanto ou quanto complicada, contra as vozes tendenciosas para me deixar ficar em casa (indiana), e viajar tantas horas em direcção ao desconhecido? Não faço ideia mas mais uma vez a grande lição se aplica: ir, somente. Nada te espera e tu nada esperas. No entanto, no fim, nada podia estar melhor planeado e todos os amigos estiveram lá.

 Isto tudo para dizer que ir sem companhia não é sinónimo de andar sozinho e que ir sem um objectivo concreto não é sinónimo de não ter significado. A diferença é que tudo se vai encontrando no caminho, de forma inesperada, fascinante e, sem dúvida, especial. Viajar sozinho, é viajar com tudo e todos à nossa volta. É estar-se livre para se fazer o que se quiser, para caminhar numa rua sozinho e no virar da esquina já se ter criado uma boa amizade, para se pôr o pé na rua decidida a comprar souvenirs e afinal ir dar uma volta de mota pelos sítios mais belos. É claro que nem tudo são rosas mas a recompensa é grande!

MANALI, Himachal Pradesh

RISHIKESH, Uttarakhand

Tirar a barriga da miséria

(Escrevo ao anoitecer, mal consigo ver as palavras que desenho. Ao fundo, sentado no cimo de uma espécie de torre, um macaco partilha a mesma vista que eu.)

Lá em baixo junto ao lago as vacas vagueiam que nem cães. As luzes vão-se reacendendo com o finalizar da reza que passava no megafone. Outras rezas ainda se ouvem em torno do lago. Depois de uma tarde de ofertas aos deuses e de banhos na água sagrada do lado de Pushkar as pessoas continuam nos degraus junto à água para um último banho abençoado. 7.30h e já é de noite, os dias estão muito mais pequenos. A lua ilumina todo o vale, a música continua.

Os dias têm passado a correr e parece que se passou uma semana quando na verdade apenas três dias se passaram desde que saí de Jodhpur. Só de pensar que pus em hipótese não vir por causa da chuva… Realmente, é verdade que nos encostamos com muita facilidade ao conforto e à segurança do dia-a-dia e isso faz-nos perder todas as oportunidades de viver, de ir e descobrir.

Então, como tudo se passou… no outro dia vi o calendário de feriados escolares e soube que este mês vou trabalhar três semanas seguidas sem interrupção pelo que decidi aproveitar o feriado de quinta-feira e pedir para não trabalhar sexta para que pudesse ir até Jaipur e Pushkar.

Terça à noite pedi autorização e comprei o bilhete de comboio para o dia seguinte. Quarta-feira começou a chover torrencialmente. Quer dizer, passou-se a monção toda no real deserto e logo nos dias que decidi ir passear tinha que estar a chover e a trovejar daquela maneira. Pus em causa a minha ida a Jaipur mas lá desliguei o botão “pensar” e fui esperar o autocarro na companhia da mãe indiana. Bem, só a ida de trinta minutos de minha casa até à estação de comboios foi uma aventura: chuva por todo o lado, dentro do autocarro, toda a gente a observar-me persistentemente, etc. Enfim, não estava a contribuir para a minha segurança de ir em viagem mas o truque é não olhar para trás e continuar a andar. Já com os pés todos sujos num misto de lama com toda a porcaria que possam imaginar que há no chão indiano (xixi, gasolina, escarra, etc.) lá me sentei no comboio no comboio e, num exercício de tentar perceber o que acho e sinto relativamente à Índia, fui acompanhando os fortes relâmpagos capazes de iluminar toda a paisagem até chegar a Jaipur.

Ora esta viagem teve um tom bastante diferente do que o que esperava mas não deixou de ser bonita e de me ensinar bastante. Foi como tirar a barriga da miséria! E claro que teve os seus, já esperados, percalços. Ao fim ao cabo, história não é história se não tiver um vilão. Muito resumidamente, na terça-feira telefonei à pessoa responsável pelo meu contracto e dono da escola onde trabalho se me podia ceder a sexta-feira. Para além de aceitar o meu pedido, o Chefe ainda se ofereceu para me ir buscar à estação de comboios de Jaipur e levar-me até a um hostel que tem um acordo qualquer com a AIESEC e que portanto, não precisaria de pagar a estadia. Chegada a Jaipur fomos até um restaurante chamado Peacock… fiquei maravilhada… que chique! Os meus olhos brilharam ao ver a casa de banho. Ocidental, com bonitos azulejos e num brinquinho! Que gosto estar naquela casa de banho! Subi até ao terraço e uma série de estrangeiros da minha idade ou uns anitos mais velhos acabavam as suas refeições ocidentais e as suas cervejas. Era com eles que íamos ter. A falta que sentia disto! Pessoal da Austrália, Colômbia, México, Polónia, Irão, Congo, Brasil… Um verdadeiro “tirar a barriga da miséria”! Uma das brasileiras chamava-se Carolina, para ajudar à minha explosão de identificação. No entanto, falar português soou demasiado estranho, a conversa com as brasileiras dividiu-se em palavras em português de Portugal, do Brasil, em Espanhol, Inglês e Hindi. Demasiado estranho pensar em português. A vida que este grupo leva em Jaipur é totalmente diferente da que levo em Jodhpur, uma vida cosmopolita, de jantares, convívios internacionais, festas. Com o “chefe” a dizer que já era tarde que tínhamos que ir embora porque no dia seguinte ia para Delhi lá fomos embora. Afinal, já não ia para o tal hostel (segundo ele, estava sobrelotado) mas sim para um hotel de 4 estrelas chamado Ramada. Já não estava a achar piada à conversa mas àquela hora não tinha grande escolha. Então, depois de me assegurar de que o quarto tinha duas camas lá fui. Bem… o luxo continua… uh lá lá! Chego ao quarto e vejo apenas uma cama de casal. AI MEU DEUS! Ainda bem que é proibido o porte de armas senão a Índia tinha ficado com uma pessoa a menos naquela noite. Chateei-me com o imbecil do Chefe (com o qual apenas tinha falado duas vezes, nunca tendo simpatizado com ele), até evoquei a irmã dele mas a resposta não passava de um nervoso “you are so funny”. Fiz com que pedisse um quarto com duas camas. Não havia, então pedi um cobertor e dormi, confortavelmente, no chão. É claro que antes de conseguir dormir o desprezível do Chefe ainda tentou obrigar-me a conversar com ele. Quem me conhece pode tentar imaginar a minha expressão extremamente zangada, indignada e enjoada. Na manhã seguinte tive a recompensa de um deitar tão atribulado: banho de água quente e pequeno-almoço dos reis! No entanto, no meio de tanta escolha com o aspecto mais delicioso de sempre houve algo que me chamou mais à atenção. Plano geral no buffet, panorâmica sobre as mais diversas opções, olhar para numa direcção, zoom in, zoom in, CHOCAPIC, panorâmica rápida para a esquerda, COLD MILK! Feito! Obrigada senhor! Acompanhado com croissants e sumo de laranja foi do melhor que há. Um verdadeiro “tirar a barriga da miséria”!

(Escrevo já em casa, em Jodhpur.)

Fui para o centro da cidade. A humidade era muita e com a chuva acabei por ficar algum tempo numa loja a lamentar-me junto do indiano sobre o facto da minha lente estar cheia de humidade e água no interior. Embora estivesse super transtornada a minha reacção foi de vazio, sem reacção. Para relaxar e enquanto esperava que a chuva acalmasse, o vendedor de roupa lá me ensinou alguns exercícios de yoga e me vestiu um saree. A chuva passou, assim como a névoa dentro da lente da câmara. Saí do refúgio, um pátio com árvores e um templo, e fui logo agarrada por dez indianos que, simpaticamente, me levaram até ao terraço das suas lojas de prata, onde me deparei com uma vista privilegiada sobre o famoso Hawa Mahal. Aconselharam-me a ir ao Amber Fort e lá fui eu. Finalmente verde! Uma muralha delineava as montanhas que rodeavam o forte e a pequena aldeia. Andei por lá a explorar com um indiano que decidiu que queria treinar inglês comigo e que me levou a uma casa de elefantes, podia ter andado de elefante mas depois da experiência com os camelos decidi ficar-me pelas festinhas. Voltei para a cidade, com passagem por um palácio meio submerso, onde andei por umas ruazinhas com um senhor condutor de Auto a visitar lojas de roupa e de velharias. Terminei o dia no templo mas não serviu para alinhar os chakras… mais parecia uma rave com tanta gente e barulho. Fui ter com um dos rapazes que tinha conhecido no jantar do dia anterior e recebi uma chamada do Chefe a tentar encontrar-se comigo e a dizer mal do tal rapaz (só porque é negro). Não podia ter tomado melhor decisão do que ir ter com o Devon e ignorar os avisos do desconfortável Chefe. A partir daqui o Chefe começou a ter reacções altamente preocupantes, a tentar controlar onde é que eu estava, achando que lhe devia algum tipo de informação e a falar, de forma super revoltada do Devon. Para além disso onde quer que dissesse que estava, tentava encontrar-se comigo. Com o resto do grupo dos estrangeiros da noite anterior fomos a uma discoteca/bar. É claro que o Chefe apareceu e não parou de me matar e ao Devon com o olhar e é claro que fugi dele e que dormi em casa dos novos amigos. Mais uma casa impecável *.* Nestes dias dormi bem como não dormia há muito! Tomámos o pequeno-almoço no terraço. Frutos, torradas, chai, omelete, biscoitos… De seguida fomos buscar a minha mala que o Chefe tinha deixado no hotel e fiquei a visitar os mercados com o meu novo companheiro de viagem que veio de Jodhpur para passear comigo até Pushkar e voltarmos juntos para a cidade de origem. Já tinha conhecido o lado verde de Jaipur (fez-me lembrar o que o meu imaginário diz como a China é), agora, já com sol, era tempo de me entranhar no mundo de cor da cidade cor-de-rosa. Depois de almoçar onde os escritores de Jaipur se encontram para trocar ideias e ter longas conversas, mergulhámos nos mercados. Elefantes pintados com cores vivas e cavalos com as “unhas” pintadas de cor-de-rosa choque encheram-me ainda mais o olhar sobre um mundo surreal. Nem nos meus mais rebuscados sonhos poderia encontrar tanta cor. De noite, jantámos num bar com a maior mistura de músicas possíveis e seguimos para mais uma discoteca onde dançámos até às duas da manhã (o meu amigo indiano pediu para passarem o “Nossa! Nossa! Assim você me mata! ai se eu te pego…”  que cantámos meio às gargalhadas). Os amigos dos dias anteriores também apareceram e dançou-se música de discoteca como se de música africana se tratasse. O pessoal do Congo a representar! Curiosidades: em vez da estratégia do ambiente quente usado nas discotecas europeias, aqui o ar condicionado é levado ao extremo; eu sempre vestida como se fosse para a praia contrastei com as turcas de mini-saia; o número de pessoas nas discotecas contam-se pelos dedos das mãos; o chão está sempre imaculado. Dormi no tal hostel prometido desde a primeira noite (ainda bem que pude poupar dinheiro nas duas primeiras noites) e acordei pronta para mais um pequeno almoço de cereais com leite frio, desta vez, ao som de uma conversa sobre viagens com outros turistas/viajantes ingleses.

Partimos para Pushkar com uns bilhetes baratíssimos (60 cêntimos) que nos permitiram ir numa carruagem apinhada. A entrada foi uma verdadeira luta, toda a gente quer conseguir um lugar. O calor faz-me adormecer mas não tenho sítio onde pousar a cabeça, tento a mala que está em pé entre as minhas pernas. As migalhas de comida estão constantemente a cair do acento de cima e não vejo mais nada senão pés. Nitidamente que o meu amigo indiano está incomodado. Com outros dois novos amigos (da Suíça e do Nepal) procurámos um sítio barato para dormir, o destino deu-nos quartos sobre o lago pelo simples preço de 4 euros cada. Fui buscar energias ao único templo de Brahma do mundo e deslizei pelo rio de cor, cheio de tentações ao bolso de qualquer um, do mercado de Pushkar. A volta foi feita junto do lago… que magia! Que sonho! Aqui acabam-se as regras das vestes, mulheres despreocupam-se com o mostrar do corpo ao banharem-se na água do lago. A crença é tão grande! É claro que aqui o negócio não é esquecido, tentam pôr-nos flores na mão, ensinando-nos como as atirar ao lago com a surpresa final de pedido de dinheiro (esta parte não me aconteceu, consigo abstrair-me o suficiente para eles perceberem que não estão a ser ouvidos). O final do dia parece prolongar-se, a magia é grande o suficiente para lhe ser concedida uns meros trinta minutos de pôr-do-sol. Várias pessoas tocam instrumentos junto ao rio, as tablas destacam-se. Velas e pequenos fogos são acendidos, está na altura de rezar. Volto para o hotel e fico a olhar tudo cá de cima.

No dia seguinte sinto que tenho que aproveitar o pouco tempo que me falta, pela hora de almoço tenho que estar de volta a Ajmer para apanhar o autocarro para Jodhpur. O pouco tempo em Pushkar não me satisfez, não deu para tudo o que a minha vontade queria. Consolo-me dizendo que posso voltar noutro fim-de-semana mas conheço-me o suficiente para perceber que é pouco provável que aconteça.

No terraço do hotel, preparada para me ir embora, desata um macaco a saltar apressadamente por todos os terraços na minha direcção, da minha carteira e da minha câmara fotográfica. Corri em direcção à porta do meu quarto que já estava fechada. Só escapei àquele macaco desvairado de dentes à mostra porque bem decidiu continuar em frente depois de me aterrorizar. Saí para uma última volta e comprei três saias lindas (não indianas, nenhuma indiana veste aquilo) por 7.70 euros e uns terços para trazer comigo a crença, a esperança, que se vive em Pushkar.

Já estou em Jodhpur, foi bonito voltar mas sinto saudades destes últimos dias. A “mãe” indiana disse que pareceu que tive fora um mês e que já tinha saudades, fiquei feliz por fazer parte. Amanhã estou de volta ao trabalho. Como será de agora em diante com o Chefe? Já está na hora de receber o salário, também… Acabou-se a pápa doce mas soube bem tirar a barriga da miséria!

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                               Jaisalmer - where you can go alone

Graças à chuva de quinta-feira, foi-me dada folga sexta e sábado (mesmo a calhar, preciso de descansar daquela escola). Muito rapidamente a minha cabeça se pôs a pensar… Embora andasse a preparar uma viagem a Udaipur e Mount Abu para quando tivesse dois dias livres, achei que devia aproveitar o mau (bom, aqui por estes lados) tempo em toda a Índia para ir à zona mais quente, ao deserto! Assim, sexta de manhã comecei a preparar a viagem, tentar condensar tudo o que queria fazer num dia para evitar ter que passar a noite em Jaisalmer, uma vez que queria estar de volta a Jodhpur no domingo para celebrar o Rakhi e estar presento no festival de Kytes. O irmão indiano ajudou-me e lá comprámos os bilhetes de comboio: um para as 23.30h do próprio dia e outro de volta para o dia seguinte, sábado, à mesma hora.

Chegados à estação de comboios senti-me logo desconfortável, um imenso tapete de gente deitada no chão em frente da estação. Ao entrar, o dormitório continuava e os que se mantinham acordados não evitaram olhar-me persistentemente. Ia ser assim a minha viagem de um dia? Encontrámos alguns turistas/viajantes (penso que esta palavra retrata melhor quem anda de mochila pela Índia) e o meu “irmão” não hesitou em tentar estabelecer algum contacto entre mim e eles. Mas vá lá… não havia necessidade de fazer o papel de mãe a tentar forjar laços de amizade pelos filhos numa ida ao parque. Anyway, estava nervosíssimo com a minha ida a Jaisalmer e eu agradeço a preocupação. No entanto deixou-me a pensar… se até os indianos têm medo de andar sozinhos se calhar é porque há razões para tal, portanto, o que raio estás a fazer a viajar sozinha na Índia, Carolina? Embora o comboio fosse muito mais apertadinho do que o que me trouxe de Delhi a viagem foi muito mais agradável, também muito mais curta. Ao chegar a Jaisalmer toda a gente tinha pessoas dos hotéis à sua espera… once again, o que raio tens na cabeça para quereres fazer tudo sozinha e quereres faze-lo a pé, Carolina? Como cheguei muito cedo, 6 da manhã, esperei um tempinho na sala de espera onde conheci um grupo de cinco pessoas nos seus cinquentas que estava com o mesmo plano de horário que eu, chegar de manhã e ir embora à noite. Uma coisa boa aqui na Índia é que TODA a gente viaja, independentemente da idade, para todo o lado, independentemente da distância. Às 7h pus-me a caminho. Tudo calmo e, afinal, o Gadisar Lake, é perto da estação de comboios. Senti-me satisfeita, orgulhosa por não ter deixado de fazer a viagem só por causa do medo alheio e que aquele momento tinha sido a minha recompensa pela coragem (o que quero dizer é mais: calma, determinação, meditação – na minha acepção da palavra). É engraçado ter chamado a este processo meditação uma vez que o tema de conversa surgiu por duas vezes no espaço de três dias. Durante muito tempo foi um termo que não conseguia compreender mas desde que decidi aceitar a minha visão sobre o que é a meditação que tem feito todo o sentido. Nas conversas apercebi-me que muitas vezes antes de dormir recorro à meditação e agora, ao escrever este texto, apercebi-me que esta estratégia que tenho usado para fazer coisas, não é coragem, não é desvaneio, é concentrar-me no presente, no acontecimento, não é pensar no que poderá acontecer, na incógnita do futuro, ou nas histórias passadas.

Pelas ruazinhas da cidade, subi até ao forte. O dia ainda estava a começar, os estaminés a comporem-se, as conversas ainda não tinham entrado no modo negócio. Passei num haveli, entrei no forte. Aqui ninguém está a salvo dos comerciantes de comida, de roupas, de artesanato, de viagens e de paleio. Todos me queriam impingir um guia e disseram que era impossível visitar o interior do forte sem um guia, cada metro que andava, uma abordagem, é claro que tinha que discriminar a minha atenção, não dá para falar com todos, à conta disso recebi uns comentários menos agradáveis. Afinal, é fácil visitar o forte sozinha, não é assim tão grande e confuso como parece. Na Índia, está instalado este sistema que faz com que as pessoas pensem que são incapazes de fazer coisas sozinhas, de viajar e visitar locais sozinhas. No fim do dia percebi que não é nada difícil e que até tem as suas vantagens. Conheci um rapaz alemão da minha idade (já tinha estado a viajar durante 9 meses pelo sul asiático; como é que os alemães conseguem estas coisas?), os únicos sozinhos naquela cidade, muito provavelmente. Entretanto, já conhecia todos os vendedores do forte, de vendedores passaram a uma espécie de amigos, não me queriam vender nada e acho que até estavam com pena de mim, a oferecerem-me trabalho nas lojas ahah Ajudaram-me, também, a visitar os sítios que queria a um bom preço. Por mil rupias (preço normal 2000 rupias), o Mr. Happy levou-me a Bada Bagh e até à área desértica de Kanoi (em vez da muito turística Sam Sand Dunes). No entretanto passámos por uma série de vilas isoladas, com casas pequenas circulares com telhados em colmo, pela lendária aldeia de Kuldara e, também, pela vila em ruínas de Khaba com um pequeno forte no topo. Chegando ao Thar Desert, tinha um camelo à minha espera (no meu horizonte não se avistava nenhuma outra alma e as minhas ideias de que algo podia correr para o torto não me largavam). Lá me pus em cima do camelo beeeeeeeehhhh não quero repetir! A subida foi um bocadinho inesperada, ia caindo! Durante a última semana vi dois filmes acerca do deserto, sendo que num deles é mostrado que os camelos não são nada mansos. É claro que isto contribuiu para a minha fuga de calma em cima do camelo. Na volta, tivemos que nos meter pelo meio de uns campos desérticos para fugir à polícia, uma vez que o meu rico guia não tinha licença para tal. O caminho de volta, por campos e campos (esqueci-me de mencionar que do centro de Jaisalmer até ao deserto são 40 e poucos quilómetros de distância) ao pôr-do-sol, a receber o vento da mota foi agradável, tirando o tremor com que fiquei nas mãos e nos pés durante mais meia hora.

Na verdade o Mr. Happy tinha um ar super assustador (magro, alto, manchas na pele, um olho parecia cego e tinha tiques nervosos em que a cabeça tinha espasmos para o lado), nada agradável, mas correu tudo com normalidade, ainda parámos na vila de produtores de vegetais e frutos da cidade, onde a irmã vive e nos deus curd, parámos na vila do resto dos seus familiares e ainda fiquei a jantar em casa dele com a mulher de 20 anos, que me fez um desenho na mão em hena, enquanto o Mr. Happy foi a uma festa. Quando voltou (sei que andou a beber álcool) ainda me levou à estação, sempre a relembrar-me que tinha que o publicitar junto dos meus amigos mas para não mencionar o preço que me fez. Meus caros, não desejo este homem a ninguém.

Última imagem que guardo de Jaisalmer: anoitecer, cimo do forte, vista para toda a cidade, três mosques seguem as suas orações depois de uma série de canções hindus vindas do meio das casas. A lua vai-se tornando mais nítida, falta um dia para a lua cheia. Morcegos pequenos e de um metro sobrevoam-me.

Ao chegar à sala de espera da estação de comboios encontrei o mesmo grupo que tinha estado a fazer-me companhia pela manhã, agradável conversar com eles.

Já no comboio, dormi. A mehndi (hena) descascou entretanto. Cinco e meia da manhã estava em Jodhpur. Mais um dia especial prestes a começar.

                       Vistas dos terraços. Coisas perto de casa.

Há cerca de duas semanas cheguei a Jodhpur. Hoje vai ser a primeira vez que vou deixar a vida confortável de uma família indiana para ir à descoberta da cidade de areia Jaisalmer. Vai ser, também, a primeira vez que passeio desta forma sozinha.

Aqui na Índia, todo o dia é dia de festa. Religiosa ou não religiosa, inter-religiosa também! Não há distinção. Feriado porque é o Ramadão, feriado porque é o dia dos irmãos, feriado porque vai de acordo com o calendário hindu, feriado porque é o dia da independência (política)…

Ontem, dia 3, foi o Friendship Day! Embora há uma semana e meia este país e estas pessoas me fossem completamente estranhas, inexistentes, ontem senti-me perfeitamente integrada e nada sozinha. Thank you Deepak (aiesec Jodhpur) for roaming the city with me! It meant so much to me! Fomos ao palácio Umaid (residência do rei), passeámos pela parte velha da cidade, entrámos em templos, fomos até ao lago rosa que podem ver nas fotografias em cima. Os três rapazes da fotografia ofereceram-me prendinhas do dia da amizade! Duas pulseiras a dizer FRIEND e um anel às cores a dizer BESTFRIEND! Yey! Fiquei toda contente, temos fotografia juntos mas não vos mostro porque estava demasiado contente (mais mix mega calor não resulta numa grande fotografia; em vez disso, dou-vos uma minha com o burrito que estava à porta de casa do Deepak). Passei também num templo (fotografia interior de um templo com mulheres viradas para o godfather, não sei bem que lhe chamar em português) onde, durante um número de meses, um dos dois livros sagrados do hinduísmo é lido. Com outro amigo e com a irmã dele fomos até um parque (aglomerado de ervas selvagens rafeiras) e acabei por jantar em casa deles! É óptimo entrar dentro das famílias, perceber as suas curiosidades, a formam como lidam uns com os outros, como me exemplificam orguhosamente grandes arrotos, como cozinham sempre deliciosamente. Umas vizinhas mais novinhas ofereceram-me um bocadinho de papel com a Minnie e Mickey abraçados (outra prendinha!!!) e “Excuse-me, go to my house please!” ahah e lá fui eu! Quando cheguei a casa, a irmã indiana também me ofereceu uma pulseira colorida a dizer FRIEND! Ah, é verdade! À tarde ainda passei no centro comercial a dizer-lhe olá, uma vez que me tinha convidado para me juntar a ela e às amigas. Já em casa, fomos a uma festa de anos de uns vizinhos. Divertido. Dança, jogos, comida. Espero que tenham tido um bom dia amigos!

Note-se que para além do friendship day, há também o slap day, o punch day, o enemy’s day, etc…

se não morrer da doença, morro da cura

                                 se não morrer da doença, morro da cura